Algumas pessoas constroem prédios, outras constroem estradas, mas existem aquelas que constroem algo ainda mais valioso: oportunidades. Em Culturama, um dos maiores legados já deixados para a comunidade nasceu através da educação, graças ao trabalho visionário de um casal que acreditou no poder do ensino para transformar vidas.
Durante as comemorações do aniversário de Culturama na Exporama 2026, a comunidade teve a oportunidade de reviver essa história através de uma visitante muito especial: Roseana, filha dos fundadores do tradicional colégio O Pioneiro, o missionário Marvin Eugene. Coffey e sua esposa Dalva Adília Monzer Coffey.
Em uma entrevista emocionante concedida ao repórter Dhione Tito do jornal Fátima News, Roseana compartilhou lembranças, histórias e sentimentos que ajudaram a reconstruir um dos capítulos mais importantes da trajetória educacional do distrito.
O início de um sonho
Segundo Roseana, em 1960, seu pai Marvin iniciou seus estudos na Escola de Teologia St. Paul, localizada em Kansas City, Missouri, onde também passou a exercer atividades ministeriais em igrejas das comunidades de Montrose, Lorry City e Thays Chapel, nos arredores da cidade. Demonstrando dedicação à vida religiosa, concluiu sua formação teológica em 1962. Após sua graduação, retornou ao estado de Nebraska, onde assumiu seu primeiro trabalho pastoral nas localidades de Bladen e New Virginia. No mesmo ano, foi ordenado diácono pela Conferência de Nebraska da Igreja Metodista Unida, alcançando a ordenação como pastor em 1964.
No ano seguinte, em 1965, Marvin, sua esposa Dalva e seus três filhos decidiram iniciar uma nova etapa de suas vidas ao retornarem ao Brasil como missionários, sob a coordenação da Igreja Metodista Brasileira. A família foi enviada ao então estado do Mato Grosso, uma região de fronteira no sudoeste brasileiro, para atuar no chamado “Plano Piloto”. Esse projeto, promovido em parceria com as Igrejas Metodistas do Brasil e do Canadá, tinha como objetivo impulsionar o desenvolvimento comunitário por meio da criação de escolas, hospitais e igrejas.
Durante seu período como pastor da Igreja Metodista em Fátima do Sul, Marvin teve papel fundamental na área da saúde pública local. Ele foi responsável pela elaboração do estatuto do primeiro hospital comunitário da cidade, além de atuar como seu primeiro presidente, liderando esforços para a obtenção de médicos, equipamentos e demais recursos essenciais para o funcionamento da instituição.
Marvin e Dalva, com a ajuda do prefeito local, Samir Chaffic Garib, construíram uma escola de ensino fundamental II na vila de Culturama — que existia há apenas três anos —, para erguer a escola, o casal chegou a adquirir uma olaria em Fátima do Sul para fabricar os tijolos que seriam utilizados na obra. Os caminhões da prefeitura faziam o transporte do material até Culturama. Mas o que torna essa história ainda mais especial é que o colégio O Pioneiro não foi construído apenas pelos seus fundadores, foi uma obra da comunidade. Moradores ajudaram na limpeza do terreno, participaram da construção e contribuíram para tornar realidade um sonho que beneficiaria gerações.

Na escola O Pioneiro, o casal Marvin e Dalva atuaram por 16 anos. A escola começou com 41 alunos e, quando Marvin partiu para assumir o cargo de pastor da igreja em Campo Grande, capital do recém-criado estado do Mato Grosso do Sul. 
Uma menina de oito anos testemunhando a história
Quando tudo começou, Roseana tinha apenas oito anos de idade, embora fosse apenas uma criança, ela acompanhou de perto o nascimento da escola e o esforço diário dos pais para fazer o projeto funcionar. Naquela época, a família ainda morava em Fátima do Sul e fazia viagens constantes até Culturama. Professores eram transportados diariamente para ministrar aulas na nova instituição.

As lembranças permanecem vivas
Durante sua recente visita ao distrito, ela teve acesso a antigos registros da escola e encontrou algo que a emocionou profundamente: sua própria letra em documentos da secretaria escolar datados de 1968.
“Eu tinha apenas oito anos e ajudava minha mãe a preencher o livro-ponto dos professores. Quando vi minha caligrafia ali, tantos anos depois, foi uma emoção muito grande”, contou Roseana.

Sem perceber, ainda na infância, Roseana começava a trilhar o caminho que definiria toda a sua vida. Crescida entre salas de aula, reuniões pedagógicas e o compromisso diário com a educação, ela não apenas estudou em uma escola — ela foi, como costuma dizer, “forjada dentro de uma”.
Enquanto outras crianças brincavam pelos corredores, ela observava atentamente o trabalho dos professores, acompanhava discussões educacionais e via de perto a dedicação dos pais. Foi nesse ambiente que nasceu sua vocação para o magistério.
O exemplo familiar foi decisivo. Filha de educadores, Roseana seguiu naturalmente o caminho da formação acadêmica, graduando-se em Pedagogia e construindo uma carreira sólida ao longo de quase quatro décadas. Atuou em escolas estaduais e também no ensino superior, deixando sua marca na formação de novos profissionais.
Sua trajetória passou por importantes instituições de Campo Grande, entre elas a antiga Fucmat, hoje Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde trabalhou por 21 anos formando professores. Em toda sua caminhada, carregou consigo os ensinamentos adquiridos ainda na infância, no Colégio O Pioneiro.
O legado de dona Dalva e Marvin Coffey
Fundadores do Colégio O Pioneiro, a diretora Dalva e o missionário Marvin Coffey tiveram papel fundamental na consolidação da educação em Culturama. Dalva dirigiu a escola em dois períodos distintos, entre 1968 e 1972 e, posteriormente, de 1975 até aproximadamente 1980, sendo responsável por estruturar e fortalecer o ensino no distrito.
Marvin chegou ao Brasil como agrônomo missionário ligado à Igreja Metodista. Com o tempo, tornou-se pastor, mantendo sempre o compromisso com o desenvolvimento humano e social das comunidades onde atuava.
Após deixarem Culturama, o casal seguiu sua missão em Campo Grande e, mais tarde, retornou aos Estados Unidos. Mesmo à distância, nunca deixaram de divulgar o trabalho realizado no Brasil, apoiando iniciativas educacionais e missionárias.
Homenagem emocionante na Exporama 2026
Um dos momentos mais marcantes da recente visita de Roseana a Culturama aconteceu durante a abertura da Exporama 2026, quando ela recebeu uma homenagem especial em reconhecimento aos serviços prestados por seus pais à educação local.
A emoção tomou conta
“Eu não imaginava que isso iria acontecer, foi uma surpresa muito grande, essa homenagem não é para mim, é um reconhecimento por tudo aquilo que meus pais fizeram por essa comunidade”, afirmou Roseana, visivelmente emocionada.
O reconhecimento ganhou ainda mais significado ao ser compartilhado com seus irmãos, que atualmente vivem nos Estados Unidos. Ao verem fotos e vídeos da homenagem, a família se surpreendeu com a dimensão do legado construído.
“Não temos noção do alcance desse trabalho, aqueles primeiros alunos formaram novos professores, hoje já estamos vendo uma terceira geração de educadores surgindo a partir daquela semente plantada lá atrás”, destacou Roseana.
Reencontro com a história
A visita também foi marcada por reencontros inesquecíveis, Roseana conversou com ex-alunos, colegas, professores e moradores que fizeram parte da história do Colégio O Pioneiro — muitos deles que não via há mais de 40 anos.
Entre abraços, lágrimas e risadas, vieram à tona memórias de uma época que ajudou a moldar a identidade de Culturama.
“Foi muito emocionante, tivemos pouco tempo para contar tantas histórias, mas cada conversa trouxe lembranças e sentimentos guardados há décadas”, relembrou.
Ela ainda visitou o local onde funcionava o colégio original e participou de atividades com alunos da atual geração, compartilhando a história da instituição com crianças e adolescentes que continuam escrevendo novos capítulos dessa trajetória.
Uma semente que segue dando frutos
Durante entrevista, o repórter Dhione Tito, também ex-aluno do Colégio O Pioneiro, destacou a importância da instituição na formação de milhares de jovens ao longo das décadas.
Hoje, muitos desses ex-alunos ocupam posições de destaque no Brasil e no exterior, atuando como médicos, professores, empresários, engenheiros e servidores públicos.
A escola, que nasceu de um sonho simples, tornou-se um verdadeiro patrimônio da comunidade — não apenas por ensinar conteúdos, mas por formar cidadãos.
Plantando ideias para o futuro
Ao refletir sobre o legado deixado por seus pais, Roseana citou um antigo provérbio chinês que resume essa trajetória:
“Se você quer colher em três meses, plante arroz. Se quer colher em dez anos, plante árvores. Mas se quer colher em cem anos, plante ideias.”

Para ela, foi exatamente isso que dona Dalva e Marvin Coffey fizeram em Culturama: plantaram ideias, conhecimento e esperança.
E os frutos dessa plantação continuam sendo colhidos até hoje.
A história do Colégio O Pioneiro não é apenas a história de uma escola, é a história de uma comunidade que acreditou na educação como ferramenta de transformação, é a história de homens e mulheres que entenderam que investir em crianças era investir no futuro.
E é a prova de que o verdadeiro legado não está nos prédios construídos, mas nas vidas transformadas.
Porque algumas sementes levam meses para florescer, outras levam décadas, mas as sementes da educação permanecem vivas por gerações.
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Dhione Tito / Jornal Fátima News