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EL NIÑO

Entenda o poder de devastação do El Niño após temporal em Campo Grande

O fenômeno climático extremo pode provocar temperaturas acima da média e alterar a dinâmica de chuvas em Mato Grosso do Sul

2 Ago 2026 - 09h28Por Midiamax

A tempestade desta quinta-feira (30), que derrubou árvores e causou alagamentos em , pode ter sido uma prévia dos efeitos do El Niño. Após dias muito quentes, o temporal acumulou 102,4 milímetros, o que corresponde ao triplo do esperado para todo o mês de julho. Para especialistas, o fenômeno climático extremo deve provocar, principalmente, ondas de calor intenso e alterar a dinâmica de chuvas em Mato Grosso do Sul.

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele enfraquece os ventos tropicais, altera a circulação atmosférica global e modifica os regimes de chuva e a temperatura em várias partes do planeta.

De julho a setembro, ele deve atingir MS com intensidade moderada. No entanto, entre setembro e dezembro, o fenômeno pode chegar à intensidade muito forte.

Em Mato Grosso do Sul, os efeitos variam de um ano para outro e dependem da interação com outros fatores atmosféricos e oceânicos. Segundo a coordenadora do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima), meteorologista Valesca Fernandes, o fenômeno “deve favorecer ondas de calor”.

Caso ocorram chuvas acima da média, pode aumentar o risco de alagamentos. Por outro lado, o predomínio de calor intenso, sem chuvas consistentes, pode criar condições favoráveis aos incêndios florestais.

Fogo no Pantanal e risco à economia

Por exemplo, o El Niño de 2023 e 2024 — considerado forte, como o esperado para este ano — elevou significativamente o calor, mas teve impacto modesto nas chuvas acima da média. Em termos práticos, a expectativa de especialistas é que o fenômeno crie condições para a ocorrência de incêndios florestais.

Para ambientalistas, o temor maior é com relação ao Pantanal sul-mato-grossense. “Se não vierem chuvas consistentes, podemos ter uma condição propícia ao fogo. Na parte final do ano, a previsão é a do Super El Niño. Podemos ter condições de fogo fora de época, como em 2023”, alerta Alcides Faria, diretor da Ecoa.

Alcides destaca que episódios do El Niño, registrados em 2019, 2023 e 2024, coincidiram com secas e incêndios no bioma.

Além disso, economistas alertam que o Super El Niño pode encarecer alimentos e pressionar a inflação em MS. O fenômeno pode reduzir a previsibilidade da produção agrícola, elevar custos e afetar principalmente a oferta de milho, insumo essencial para a criação de aves, suínos, bovinos e para a produção de leite.

Assim, o efeito pode encarecer alimentos, pressionar a inflação, prolongar os juros elevados e reduzir investimentos, com impacto ainda maior em Mato Grosso do Sul devido à forte participação do agronegócio na economia estadual.

El Niño foi o causador da tempestade?

Mato Grosso do Sul não foi o único Estado com registros de destruição relacionados às chuvas nesta semana. , São Paulo e  tiveram consequências ainda mais devastadoras, inclusive com registro de mortes. O tempo severo começou na região Sul do país e depois avançou para o Sudeste e o Centro-Oeste.

O meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operação do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), em entrevista ao jornal O Globo, afirma que esses temporais podem ser considerados um sinal da influência do El Niño no clima da América do Sul, como a ponta do dedo do longo braço do El Niño. Ele considera que o fenômeno está associado à frente fria estacionária que gerou as fortes chuvas.

Mais conservadora, a meteorologista do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima), Valesca Fernandes, diz que ainda é cedo para fazer uma correlação entre o El Niño e as tempestades que atingiram Campo Grande. “Não há como afirmar sem fazer estudos específicos”, explica.

A especialista reforça, ainda, que o El Niño costuma provocar mais ondas de calor do que tempestades em Mato Grosso do Sul. Dessa forma, especialmente no Estado, pode ser precipitado fazer uma ligação direta entre o fenômeno e a chuva de 102,4 milímetros.

El Niño traz onda de calor para MS?

(Gráfico: Divulgação, Cemtec)

A temperatura média anual em Mato Grosso do Sul é de cerca de 24,87°C. Nas últimas duas ocorrências de El Niño classificadas como fortes, termômetros do Estado marcaram até 5% acima do esperado. Dessa forma, o Cemtec considera que 2023 e 2024 registraram recordes históricos de altas temperaturas.

Por outro lado, há dez anos, o El Niño muito forte de 2016 registrou 24,44 °C, abaixo da média do período. O mesmo ocorreu em anos de El Niño como 2003, 2004, 2009, 2010 e 2018.

Oposto ao El Niño, a La Niña é um fenômeno climático provocado pelo resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Ela também altera a circulação dos ventos e influencia o regime de chuvas e temperaturas. Em Mato Grosso do Sul, costuma favorecer períodos mais secos, mas seus efeitos também variam.

“[Há] uma associação entre a atuação do ENOS [El Niño-Oscilação Sul] e a variabilidade térmica em Mato Grosso do Sul, embora essa relação não seja determinística. […] Os dados indicam que o ENOS atua como importante modulador das condições térmicas, mas seus efeitos dependem também da interação com outros fatores atmosféricos e oceânicos“, analisa a meteorologista Valesca Fernandes.

El Niño vai ‘alagar’ MS?


(Gráfico: Divulgação, Cemtec)

A média acumulada anual de chuvas em Mato Grosso do Sul é de 977 milímetros. O último ano em que o El Niño foi considerado forte superou por pouco períodos de neutralidade no Estado. A coordenadora do Cemtec analisa que o fenômeno influencia o regime de chuvas, mas de forma variável.

Em anos com El Niño, como 2009, 2016 e 2023, o total anual ficou acima da média. Já em períodos marcados pela La Niña, como em 2021 e 2022, o acumulado ficou abaixo do esperado. Porém, exceções romperam esse padrão. Apesar do El Niño, os anos de 2002 e 2024, por exemplo, registraram um dos menores acumulados da série histórica.

Isso ocorre porque, embora o El Niño seja relevante, outros sistemas atmosféricos também impactam o tempo de Mato Grosso do Sul, como a Zona de Convergência do Atlântico Sul, frentes frias, jatos de baixos níveis, sistemas convectivos e oscilações nos oceanos Atlântico e Pacífico.

“Deve ser interpretado como um importante fator de modulação climática, mas não como o único determinante da variabilidade interanual das chuvas em Mato Grosso do Sul”, conclui Valesca Fernandes, meteorologista coordenadora do Cemtec.

Estragos do temporal

Moradores tentam desobstruir boca de lobo na Av. Marinês Souza Gomes. (Pietra Dorneles, Midiamax)

Muitos bairros de Campo Grande sofreram com as fortes chuvas na manhã de quinta-feira (30). Pontos como Parati, Lageado, Centenário, Vila Piratininga, Rita Vieira, Los Angeles e Silvia Regina foram afetados por falta de energia.

Jornal Midiamax registrou enchentes em várias vias dos bairros Santo Eugênio, Chácara dos Poderes, Tiradentes, Los Angeles e Centro. Um alagamento embaixo do viaduto que conecta a Avenida Ministro João Arinos à BR-163 deixou diversos veículos, principalmente ônibus do transporte coletivo, parados no trânsito por mais de uma hora.

A Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) fez 15 atendimentos de manutenção semafórica em diferentes pontos da cidade, além de sinalização em regiões afetadas por estragos. A Defesa Civil registrou 50 ocorrências, a maioria relacionada à queda de árvores.

A Emha (Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários) distribuiu lonas para proteger residências danificadas pela tempestade.

 

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