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Brasil entra em campo pela paz no Haiti

18 Ago 2004 - 08h34

O Haiti está em festa. Em busca de sua soberania desde que conseguiu, a duras penas, livrar-se do domínio dos franceses em 1804 e proclamar a independência, conduzido por sangrentas ditaduras e regimes de repressão desde então, o povo haitiano terá nesta quarta-feira, a partir das 16h30 (de Brasília), enfim, o direito de sorrir.

O motivo é simples: o país mais pobre da América Latina, mergulhado no caos econômico e social desde que o presidente Jean Bertrand Aristide deixou o país e partiu para o exílio, vai poder parar para ver em ação uma de suas maiores paixões, a seleção brasileira de futebol.

O local da festa será o precário estádio Sylvio Cantor, em Porto Príncipe, um galpão até bem pouco tempo atrás esquecido em meio à guerra civil que colocara a capital haitiana em chamas. No alto de sua capacidade de 13 mil lugares, as arquibancadas pintadas de verde e amarelo terão num de seus anéis ninguém menos que os chefes de governo brasileiro, Luis Inácio Lula da Silva, e do Haiti, Gérard Latourte.

Foto Reuters
Foto Reuters

Ronaldo recebe orientação de Parreira durante treino realizado antes do jogo.

Em campo, o atacante Ronaldo, do Real Madrid, será a principal atração - com presença confirmada, ele já anunciou várias medidas para ajudar o povo do Haiti. “Será um jogo que atuarei com muito orgulho e prazer. É nossa obrigação ajudar a quem precisa e o povo do Haiti merece este jogo. Não podemos fugir de nossa responsabilidade”, analisou Ronaldo.

Além do Fenômeno, alguns dos principais nomes do futebol brasileiro em atividade na Europa, como os meias Gilberto Silva e Edu, do Arsenal, o meia Juninho Pernambucano, do Olympique de Lyon, e o lateral Roberto Carlos, do Real Madrid e o meia Ronaldinho, do Barcelona, também estarão em campo.

Para outros, como Pedrinho e Magrão, do Palmeiras, Roger, do Fluminense, que atuam no Brasil, o amistoso servirá também para mostrar serviço ao técnico Carlos Alberto Parreira e provar que podem ser lembrados para as próximas convocações.

Apesar do clima amistoso, Parreira vai exigir empenho de seus jogadores. “Teremos um confronto diante da Bolívia pelas Eliminatórias, em setembro, e precisamos aproveitar as oportunidades que temos para trabalhar com seriedade”, disse Parreira.

Pelo lado do Haiti, o técnico Carlos Mocelin reconheceu que todos esperam a derrota de sua equipe. Para ele até um empate será complicado. “Não ficarei triste com a derrota, pois sei que podemos perder. Itália, Alemanha e Argentina já perderam para o Brasil. A passagem da Seleção por aqui vai marcar o Haiti. O mais importante é a festa do povo”, disse o treinador, que substitui ao Fernando Clavijo, uruguaio que foi demitido depois da derrota de 3 a 0 para a Jamaica pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006.

Os jogadores do Haiti terão que lutar também contra a falta de ritmo, já que o campeonato nacional foi adiado por falta de verbas.

Esta não será a primeira vez que uma equipe de futebol brasileira vai a campo para tentar parar uma guerra civil. Em 1969, o Santos de Pelé e companhia foi até a Biafra, país do continente africano, para tentar parar uma guerra fratricida a que o país estava mergulhado.

A iniciativa dos países em entrar em campo pela paz foi elogiada até mesmo pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter, que classificou o encontro como uma “amostra da universalidade do futebol, e de como o esporte pode servir como uma ferramenta em busca da paz”.

“A favor dos gols, contra a guerra, esta é a mensagem”, declarou Blatter na sede da entidade, em Zurique. No último mês de maio, a Fifa chegou a doar US$ 200 mil (cerca de R$ 600 mil) ao governo haitiano para restaurar instalações esportivas, destruídas pela guerra civil que assolou o país nos últimos tempos.

 

Gazeta Esportiva

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