O legado na luta pela democracia, representatividade feminina e em defesa da educação foi lembrado por familiares, amigos e políticos que se despediram da ex-vereadora e primeira prefeita de Campo Grande, Nelly Bacha, durante o velório na Câmara Municipal de Campo Grande, na manhã desta quinta-feira (9). A ex-vereadora morreu na noite desta quarta-feira (8), por insuficiência respiratória em decorrência do Parkinson.
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O ex-senador Waldemir Moka (MDB) conta que ambos foram eleitos vereadores em 1982. "A gente tem que lembrar que, em 1982, foi a primeira eleição direta após 1964, então isso mobilizou muito a população. Nelly sempre se opôs à ditadura, assim como minha geração, e todo esse esforço foi recompensado. Isso demonstra como a sociedade enxergava uma pessoa que ousou enfrentar o regime de exceção", relata.
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Na época, o Legislativo municipal era composto por 21 parlamentares, e apenas duas cadeiras eram ocupadas por mulheres: Nelly Bacha e Marilene Coimbra. "Ela era uma vereadora valente, combativa, sempre foi filiada ao MDB, o único partido de toda a sua vida", completa Moka.
O ex-governador André Puccinelli (MDB) ressaltou o perfil determinado da correligionária. "Nós convivemos no período em que fui secretário de saúde. Ela sempre estava cobrando as coisas para a cidade, era uma pessoa determinada, que nunca levava mal recado para casa. Sempre participou dos embates, foi uma grande partidária", lembrou.
Já a vereadora Luiza Ribeiro (PT) destacou o papel histórico de Nelly na política. "Na época dela, embora a Câmara fosse menor, proporcionalmente havia mais participação feminina. Hoje a gente vem arrastando indicadores ainda muito baixos de participação das mulheres na política. Atualmente, não chegamos a 7% do plenário composto por mulheres", disse.
Luiza lembra que a ex-vereadora foi da ACP (Sindicato Campo-Grandense dos Profissionais da Educação Pública) e ajudou a fundar a Feprosul (Federação dos Professores de Mato Grosso do Sul), atual Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul). "Nelly sempre apoiou nossas lutas. Era uma referência para nós, tanto na luta do movimento sindical como na luta das mulheres", afirmou.
Desde que foi diagnosticada com Parkinson, em 2018, a ex-vereadora contou com os cuidados da cunhada Marina Alves Rodrigues Bacha, de 69 anos. Para a família, um dos maiores legados foi a defesa da educação. "Era uma pessoa muito forte, corajosa, sempre incentivando as mulheres da família a estudar. Ela considerava que a educação é o que move a mudança no mundo. Era uma mulher à frente do seu tempo", disse.
Mesmo lutando contra a doença há quase uma década, a morte não era esperada pela família. "Ela estava passando por momentos com muitas idas e vindas do hospital, mas foi de repente, a gente achou que ela voltaria para casa."
Ex-vereadora e primeira mulher a comandar a Prefeitura de Campo Grande, Nelly Bacha (Foto: Divulgação/ Denilson Nantes)
Trajetória - Nelly Bacha nasceu em Corumbá, no dia 2 de agosto de 1941, filha descendente de libaneses. Ainda criança, mudou-se com a família para Campo Grande. Formou-se em Filosofia e em Direito. Foi professora de escolas públicas e presidiu a ACP (Sindicato Campo-Grandense dos Profissionais da Educação Pública), onde lutou por vários direitos dos professores e pela realização de concurso para a categoria.
Nelly ingressou na política como vereadora pelo MDB. Tinha como principais referências o ex-governador Wilson Barbosa Martins, o ex-prefeito Plínio Barbosa Martins e Ulysses Guimarães, que presidiu a Assembleia Nacional Constituinte. Professora Nelly sempre foi filiada ao MDB, que fazia oposição à ditadura.
Foi vereadora da Câmara Municipal de 1973 a 1988. Presidiu a Casa de Leis nos anos de 1983 e 1984. Nesse período, em 1983, durante pouco mais de dois meses, assumiu a Prefeitura da Capital, tornando-se a primeira mulher prefeita de Campo Grande.
De acordo com o registro “Campo Grande: Memória em Palavras”, publicado pela Prefeitura há cerca de duas décadas, Nelly destacou que sua chegada ao comando do Executivo municipal ocorreu em meio a um impasse político. À época, o então governador defendia a realização de eleições, enquanto o modelo vigente previa indicação. Durante esse período de indefinição, ela assumiu interinamente a gestão por ser presidente da Câmara.
Em depoimentos, Nelly Bacha frequentemente ressaltava o papel das mulheres em sua trajetória política. “Minha ascensão, em grande parte, eu devo às mulheres que acreditaram em mim. Naquela fase da história, eu sempre representei um avanço e tenho muita consciência disso”, afirmou.
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