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PERIGO DA INTERNET

Desafios on-line: busca por pertencimento e adrenalina expõe jovens a riscos, diz especialista

Três crianças e adolescentes morreram em MS neste ano, sob suspeita de participação em desafios na internet

24 Jul 2026 - 10h34Por Midiamax

Em 2026, três crianças e adolescentes sul-mato-grossenses morreram com suspeita de participação em desafios on-line. Na opinião de especialistas na mente infantojuvenil, com os pequenos passando mais tempo sozinhos nas férias escolares, o celular pode se tornar um risco quando adolescentes encontram pertencimento em grupos perigosos na internet.

 

Em março deste ano, uma menina de nove anos morreu em  ao tentar inalar desodorante, em ‘desafio’ de rede social. Na terça-feira (21), um menino de oito anos perdeu a vida em circunstância parecida, em . No dia seguinte, uma adolescente de 13 anos foi encontrada morta após participar de desafios virtuais. Os últimos dois casos ainda são investigados pela polícia.

Para Emília Luna, psicóloga infantojuvenil e neuropsicóloga com 28 anos de experiência, há três elementos que explicam por que adolescentes e crianças se interessam por esses desafios: a atração pelo risco, a necessidade de pertencimento e a dificuldade de controlar impulsos, já que eles não têm o cérebro completamente formado.

 

Para os adultos responsáveis, as férias são um período de alerta redobrado — principalmente no meio do ano, quando as crianças ficam em casa e os pais seguem no trabalho. Dessa forma, o cuidado deve ser redobrado, mas é importante manter o equilíbrio na vigilância para não perder a confiança dos adolescentes. A dica principal é criar um vínculo de diálogo com os filhos desde o início da infância, diz a especialista.

Por que se colocam em risco?

Quem já tem mais experiência de vida e a mente completamente formada pode achar estranho que os jovens caiam na cilada dos desafios que colocam a vida em risco. No entanto, a psicóloga explica que é justamente a sensação de risco que atrai os adolescentes.

 

“A adolescência tem uma necessidade maior de dopamina e adrenalina; eles precisam disso. E esse tipo de desafio causa justamente essa sensação de estar vivo, sensação de estar correndo risco. Isso é um caráter da adolescência”, diz Emília Luna.

Além disso, a aproximação e procura por grupos são processos naturais e saudáveis na adolescência, em busca de pertencimento. “O adolescente sempre vai procurar um grupo a que ele pertença e aí existe o chamado efeito manada. Ele vai procurar grupos de iguais. Se, para entrar naquele grupo, ele precisa cumprir o desafio, a chance de ele tentar fazê-lo é grande”, explica a psicóloga.

Outro elemento que leva à participação em desafios mortais é que a mente ainda não está completamente madura. “Eles não têm o córtex pré-frontal formado, que é a parte do cérebro que controla o impulso. O adolescente vê, vai lá e faz, sem pensar na consequência. Isso é uma questão natural do cérebro”, alerta Emília Luna.

Família não pode tirar férias

Os dois casos mais recentes de morte por suspeita de participação em desafios foram registrados nas férias. “É um momento sensível, mesmo, porque, principalmente em julho, muitos pais estão trabalhando, as crianças e os adolescentes não têm aula e até já podem ficar sozinhos pela idade”, explica a psicóloga. Dessa forma, os grupos on-line viram companhia. “Eles entram em contato com a internet, veem o burburinho de desafios e querem fazer parte.”

Na opinião da especialista, proibir o uso de celular, por exemplo, dificilmente adianta. “Proibir aumenta ainda mais a vontade de fazer, porque tem várias questões envolvidas. […] É muito mais efetivo fazer o adolescente pensar sobre aquele comportamento. E isso exercita a questão do impulso do córtex pré-frontal também”, alerta.

Além de não ser indicada, a proibição pode ser também inviável. “No período de férias, principalmente, eles estão em casa sozinhos, com o celular. Eles têm acesso a isso. É como água, não tem como a gente evitar; os pais estão fora de casa e proibir vai ser muito difícil”, diz Emília Luna.

“A melhor conduta é fazer os adolescentes pensarem, pegar o conteúdo e conversar sobre isso. Deixar o adolescente falar e os pais irem argumentando sempre de uma forma que o adolescente fale”, orienta a especialista.

Atenção sem investigação

Naturalmente, a partir da pré-adolescência, o indivíduo começa a “cortar o cordão umbilical”: tem as próprias ideias e opiniões e começa a se separar da família para construir a própria vida e personalidade. É nesse momento que surgem os grupos de fora do núcleo familiar. No entanto, esse distanciamento não significa falta de conversa em casa.

“Não é que os adolescentes precisam se distanciar dos pais literalmente. Isso ocorre no nível psicológico, mental… Na adolescência, existe ainda mais necessidade de os pais estarem próximos dos filhos e deles sentirem essa conexão”, diz a neuropsicóloga. O ideal é que a família seja um espaço para tirar dúvidas sobre essa nova etapa. “Eles precisam sentir que podem ter a personalidade e a vida deles, mas ainda ter a família como um porto seguro”, conclui.

Essa aproximação, porém, precisa ser cuidadosa. “É importante os pais saberem o que os adolescentes estão consumindo na internet, o que eles gostam e assistem. A dica para os pais é tentar entrar nesse mundo de uma forma curiosa, não no sentido de investigação”, orienta a psicóloga infantojuvenil.

Manter conversas com os filhos desde pequenos é a melhor forma para não enfrentar dificuldades na adolescência, na visão da especialista. “É muito difícil uma criança que não vivenciou essa proximidade com os pais na infância virar a chave na adolescência. A aproximação deve acontecer desde a infância, para, quando chegar nesse momento, haver um distanciamento saudável”, afirma Emília Luna.

 

 

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