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Brasil

Papa Bento 16 torna hoje frei Galvão 1º santo do Brasil

11 Mai 2007 - 08h39

Bento 16 vai quebrar a própria regra nesta sexta-feira, a partir das 8h30 (horário de Mato Grosso do Sul), ao fazer de Antonio de Sant'Anna Galvão, o "Frei Galvão", o primeiro santo brasileiro. Contrariando o que havia anunciado ao assumir o cargo no Vaticano, em 2005, a canonização acontece fora de Roma.

No altar montado no Campo de Marte, em frente a milhares de fiéis, o papa irá ler o decreto de santificação após a apresentação de uma biografia do religioso. Difícil será, em poucos minutos, condensar a vida do franciscano que construiu o mosteiro da Luz com as próprias mãos e criou as pílulas de papéis, milagrosas segundo seus devotos.

A missa no Campo de Marte, na zona norte de São Paulo, deve durar duas horas. Para o evento, 1 milhão de pessoas são esperadas. Antes de iniciar o ato religioso, o papa Bento 16 fará um giro dentro do papamóvel entre os fiéis. Nascido em uma família rica e influente em Guaratinguetá, no ano de 1739, o menino Antonio cresceu em uma casa de dez cômodos servido por 28 escravos. Mas não se deslumbrou com o luxo e aprendeu com os pais o ato da caridade. Ainda criança, via a mãe dar o que tinha em casa aos pobres.

Aos 13 anos, seu pai o mandou estudar no Seminário de Belém, escondido em Cachoeira, a 109 km de Salvador. Da ordem dos jesuítas, era o melhor colégio religioso da época. Foi um aluno notável e decidiu seguir a vida religiosa. Teve de mudar de ordem, porém -os jesuítas estavam sendo perseguidos no país e seus colégios acabaram fechados. Antonio abraçou a ordem dos franciscanos, da qual seu pai já fazia parte. Em 1762, foi transferido, já ordenado, para o Convento de São Francisco, no centro de São Paulo, onde permaneceu por 60 anos.

Terras paulistas

Em terras paulistas, realizou seus feitos: tornou-se poeta e membro-fundador da Academia dos Felizes, primeira academia de letras de São Paulo; passou 28 anos construindo o mosteiro e a igreja da Luz; peregrinou a pé pelo Estado em busca de donativos; pagou dívidas de trabalhadores sem que soubessem; começou, sem querer, a propagar sua fama de santo mesmo em vida.

Alguns episódios contribuíram para isso. Histórias da época contam que o frade teria o dom da bilocação (capacidade de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo) e, por várias vezes, teria sido visto por devotos em dois locais na mesma hora. Para reforçar a crença de que ele era, no mínimo, alguém especial, casos de cura começaram a ser relatados.

Tudo por conta das pequenas pílulas que, quase sem querer, frei Galvão acabou criando nos últimos anos do século 18. Procurado por um pai que não sabia mais o que fazer para aplacar as dores de um filho que sofria de pedras nos rins, ele decidiu escrever em um pequeno pedaço de papel um trecho em latim do Ofício de Nossa Senhora. Enrolou o papel e deu ao homem para que ele fizesse o filho tomá-lo. Ordem cumprida, o doente expeliu as pedras e não sentiu mais dor.

O fato se repetiu pouco tempo depois com uma mulher que corria risco na hora do parto. Pílula tomada, mãe e filho ficaram salvos. As histórias correram de boca em boca e, em pouco tempo, fiéis iam a procura das pílulas. Ao morrer, em dezembro de 1822, elas já eram feitas pelas freiras do mosteiro. Mesmo após sua morte, a devoção continuou aumentando e, em 1938, começou o primeiro processo para a canonização do frade, que não seguiu adiante.

Em 1986, o processo foi reaberto e o primeiro milagre atribuído a frei Galvão por causa das pílulas (a cura de uma menina) recebeu reconhecimento do Vaticano em 1998. João Paulo 2º fez do frade um beato. Oito anos depois, um segundo milagre (a salvação de mãe e filho em uma gravidez cientificamente improvável) foi confirmado por Bento 16, que anunciou a canonização.

Multidão

Pelo menos um milhão de pessoas já estão reunidas no Campo de Marte (zona norte) para a canonização do frei franciscano Antônio de Sant'Anna Galvão, o frei Galvão, o maior evento religioso já realizado no País. A previsão é que o evento, que será celebrado hoje pelo papa Bento 16 possa reunir até 1,5 milhão de pessoas, segundo o coronel da Polícia Militar Luiz Flávio Codelo.

O acesso ao público foi liberado à 1h de hoje, quando 500 mil pessoas já esperavam para conseguir um bom lugar na missa. À meia-noite, segundo Codelo, 200 mil aguardavam do lado de fora. Acompanhe ao vivo a visita do papa Bento 16 ao Brasil em tempo real na Folha Online.

Vários devotos de frei Galvão aguardam ansiosamente pelo início da missa de canonização. Esse é o caso de Maria Charam, 86, que saiu cedo do Mandaqui (zona norte) para acompanhar a celebração. Sem andar por problemas no fêmur, ela disse que toma as pílulas de frei Galvão uma vez por mês. Ela veio com o filho, Markiano Charan, 43, deficiente visual.

Bento 16 deve sair do mosteiro São Bento (centro) por volta das 7h30 e seguir em veículo convencional blindado para o Campo de Marte. A chegar, por volta das 8h, o papa deverá circular entre os fiéis de papamóvel. A missa está programada para começar às 8h30 - e acabar por volta das 11h. Após a cerimônia de canonização, Bento 16 retorna para o mosteiro de São Bento, onde participa de uma cerimônia de despedida.

De lá, ele segue para a Catedral da Sé (centro) para um encontro com bispos. Em seguida, retorna para o Campo de Marte, onde embarca para Aparecida de helicóptero. Por conta da quantidade de pessoas esperadas, a Prefeitura de São Paulo recomenda aos fiéis que utilizem ônibus e metrô para chegarem ao local. Linhas de ônibus saem da estação Barra Funda (zona oeste) em direção ao Campo de Marte. Todos os trajetos utilizados pelo papa serão interditados para os demais veículos.

Os fiéis devem prestar atenção às regras de segurança criadas para quem assistir à missa de canonização. O público que vai participar da celebração deverá passar por uma revista --tanto homens quanto mulheres. A segurança vai barrar a entrada de objetos perfuro-cortantes. Por conta disso, guarda-chuvas serão proibidos. Para evitar transtornos, é melhor levar capas de chuva e casacos para enfrentar as temperaturas baixas.

Objetos quebráveis também serão vetados. Dessa forma, garrafas de vidro deverão ficar do lado de fora. O público poderá levar alimentos para o local. Câmeras fotográficas e filmadoras também serão permitidas.

Passagem

Ontem, em seu segundo dia da viagem ao Brasil, o papa quebrou o protocolo. Da sacada do mosteiro São Bento, na região central de São Paulo, o papa acenou para o público que esperava por sua passagem. O gesto - repetido outras vezes - não constava da agenda original do sumo pontífice.

Do mosteiro (pela manhã), o papa partiu para o Palácio dos Bandeirantes (zona oeste), onde iniciou uma agenda repleta de compromissos. Lá, ele foi recebido pelo governador de São Paulo, José Serra, e por sua mulher, Mônica Serra.

Em seguida, o papa teve um encontro reservado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com a primeira dama, Marisa Letícia, de aproximadamente dez minutos. No encontro, Bento 16 pediu a Lula a assinatura de um acordo de regulamentação da Igreja Católica no país. Esse acordo passa por questões sociais e tributárias.

Mas Lula disse ao papa que vai "preservar e consolidar o país como Estado laico". O papa, por sua vez, teria afirmado reconhecer o Brasil como Estado laico e que respeitava essa posição. De lá, ele seguiu para o mosteiro de São Bento para participar de um encontro ecumênico com representantes de outras religiões. O rabino Henry Sobel disse que saiu "leve e alegre" do encontro com Bento 16.

Fabio Pozzebom/ABr

Em seguida, o papa almoçou no mosteiro com a direção da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) --onde foi servido nhoque de mandioquinha. À tarde, o papa recebeu empresários como Antônio Ermírio de Moraes (Votorantim) e Lázaro Brandão (Bradesco). Serra também voltou a se encontrar com o papa para pedir a beatificação da irmã Dulce.

Antes de seguir para o encontro com jovens no Pacaembu (zona oeste), o papa passou pelo Memorial da América Latina (mesma região), onde descerrou uma placa de benção aos povos da região.

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