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Leia o artigo “Quem faz pelo livro”, Bruno Peron Loureiro

1 Nov 2010 - 12h00Por

QUEM FAZ PELO LIVRO

 

Bruno Peron Loureiro

 

 

 

O livro ainda é bem de luxo e se lê muito pouco no Brasil. Para contrapesar este diagnóstico que persiste ao longo das décadas e denigre nossos reais dados da educação, governos e instituições não-governamentais têm proposto formas de acesso ao livro e incentivo à leitura.

 

Num país em que "todos querem tirar o seu", é procedente a afirmação de que as leis de mercado funcionam melhor que as políticas públicas para a democratização da leitura?

 

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) sustenta uma postura otimista ao fundamentar seus argumentos num estudo que indica queda de preços nalgumas categorias de livros: didáticos (24,5%), religiosos (38%), obras gerais (22,4%) e científicos, técnicos e profissionais (23,3%).

 

Outros representantes privados defendem que se tem produzido número maior de títulos, portanto o aumento da oferta barateia o preço do livro. Ignoram, porém, que este argumento é tão pífio a ponto de contradizer-se em que, se aumentar a compra de livros e consequentemente a demanda, o preço sobe. A bonança, assim, duraria pouco.

 

Aqueles que simplesmente associam o hábito saudável de leitura às oscilações de mercado, entretanto, não enxergam a indústria do livro além de um objeto a mais de ganância em vez de instrumento de enriquecimento cultural de um povo. O livro seria, então, uma "mercadoria".

 

O processo de produção do livro envolve escritores, editores, gráficas, indústrias de papel, livreiros, distribuidores, tradutores quando forem necessários, e outros que não cedem facilmente seu meio de sustento a políticas de democratizadores da cultura.

 

A indústria do livro corre um risco parecido ao crepúsculo da musical. Atualmente são poucos os que se atrevem a pagar tão caro por um disco original, pois albuns inteiros dispõem-se para aquisição gratuita na internet. O endereço http://www.torrentz.com é uma fonte interminável de discografias. Se o livro continuar caro, o leitor o copiará sem hesitação ou deixará de ler.

 

Não deixo de mencionar as iniciativas de digitalização de livros completos na internet, onde o leitor paga para ter acesso virtual à obra. Já há mecanismos que simulam a sensação de folheá-los. A medida dispensa a indústria de papel e pode baratear o acesso ao livro e à leitura.

 

As leis de mercado encarecem os libros em sebos no Brasil, uma vez que os mais raros estão sujeitos à oferta baixa, portanto preços abusivos. O Brasil deixa a desejar em comparação com alguns países latino-americanos, como Argentina e México, no que se refere ao barateamento do custo de livros e a facilidade de encontrar títulos, como os universitários.

 

Algumas especialidades acadêmicas exigem ainda a leitura de obras que não foram traduzidas ao português, porém a disponibilidade delas nas livrarias nacionais, ainda que sob encomenda, é rara, custosa e demorada.

 

As leis de mercado engrenam processos sobre os quais o Estado não atua nem deveria para não se expor ao risco do dirigismo: o que, quanto, como e onde ler. Aquelas, porém, não têm sido suficientemente convincentes a fim de resolver a pendência de falta de leitura no Brasil.

 

Deste modo, o acesso ao livro não se faz somente mediante a compra do "produto" pelo maior número possível de leitores, o que satisfaria o insidioso mercado, senão também com o aparelhamento e incentivo do uso de bibliotecas públicas e escolares.

 

Os empréstimos bibliotecários ensejam uma rotatividade maior dos livros sem o risco de desperdício em estantes privadas empoeiradas ou, como se flagrou uma vez numa cidade tupinica, obras de escritores nacionais renomados amontoadas numa caçamba de lixo.

 

É necessário frisar que boa parte dos jovens mudou os hábitos de leitura em vez de ler menos: mensagens instantâneas (como nos programas MSN, Twitter e Orkut) e "torpedos" nos celulares, cartazes publicitários distribuídos caoticamente pelas cidades e notícias que sobem em tempo real nas telas do computador transformaram a rotina de leitura. Talvez seja o momento de resgatar a importância do livro no processo de construção cidadã, digno de qualquer idade.

 

Os três níveis de governo (municipal, estadual e federal) há muito discutem sobre o tema, elaboram leis e lançam programas que incentivam a leitura no Brasil, como o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER).

 

Em março de 2006, o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação fizeram parceria para o lançamento do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), uma proposta ambiciosa. Seus objetivos principais têm sido nominalmente: democratização do acesso; fomento à leitura e à formação de mediadores; valorização da leitura e comunicação; desenvolvimento da economia do livro.

 

Esta última estratégia do PNLL indica que é difícil evadir a cadeia complexa de produção, distribuição e consumo do livro com todos os atores envolvidos e citados acima. A participação ativa do Estado e a cobrança dos cidadãos são imprescindíveis para, ao menos, regular o funcionamento deste mercado.

 

O livro deve ser facilmente acessível e associado ao lazer e não unicamente estudo e labor. Quem lê o que gosta, desfruta.

 

Se o acesso à leitura for divulgado nos lares e nas escolas, os jovens desenvolver-se-ão com este hábito saudável e formador da consciência.

 

Estado e mercado, em vez de se anularem, podem um suprir as carências do outro para a promoção do livro e a leitura.

 

 

 

Bruno Peron Loureiro é mestre em Estudos Latino-americanos por FFyL/UNAM.

 



http://www.brunoperon.com.br

 

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