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Futuro da Venezuela será decidido no domingo

14 Ago 2004 - 07h44
“Se o governo de Chávez vence e consegue ter uma grande margem de votação, como na primeira eleição, sai bastante fortalecido”, afirma Rafael Villa, venezuelano que está no Brasil há 16 anos e atualmente é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP).

No dia 15 de agosto, a Venezuela encerra mais uma fase das tensões que abalaram o país desde o golpe mal-sucedido contra o presidente Hugo Chávez, entre 11 e 14 de abril de 2002. No próximo domingo, acontece o referendo que decidirá se Chávez deve ou não continuar no poder. O desenrolar dos acontecimentos na Venezuela é acompanhado no mundo todo, uma vez que o país é o quinto maior exportador de petróleo.Villa diz que a vitória de Chavez “reafirmaria sua legitimidade”, além de ser um fato que “não poderia ser ignorado nem pelos setores de oposição, nem pelos setores externos, como os Estados Unidos”.

Para o coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Emir Sader, “uma derrota de Chávez significaria o assanhamento da política de George W. Bush [presidente dos EUA] na América Latina, porque os vencedores seriam as forças extremistas - estilo guerra fria e oposição”.

Isso fortaleceria, segundo ele, também a intervenção na Colômbia. “A Venezuela seria certamente uma base militar para fortalecer a tentativa de resolução militar nos conflitos colombianos. A vitória de Hugo Chávez, ao contrário, significaria o fortalecimento do processo de integração”, afirma. Emir Sader, que também é professor da USP, explica que esse fortalecimento ocorreria “não só pelo Mercosul, que enfraqueceria a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), mas também porque eles têm uma proposta, por exemplo, de criação de uma empresa estatal de petróleo continental, onde entrariam a Petrobrás e a Pemex (estatal mexicana de petróleo)”.

E completa: “Além disso, há um intercâmbio muito saudável entre Venezuela e Cuba. Um modelo comercial justo, em que cada país dá o que tem, não aquilo que é valorizado no mercado internacional. Neste caso, a Venezuela tem petróleo e dá petróleo, Cuba tem técnicos em educação, saúde e esportes e dá o que tem”.

Situação interna

O venezuelano Rafael Villa lembra outra conseqüência importante, dentro da Venezuela: “O que está em jogo também no referendo é a correlação de forças dentro do sistema político daquele país. Isso porque em setembro haverá eleições para deputados e para governadores. Em fevereiro, mais eleições, para vereadores e para os alcaides (que equivalem aos prefeitos no Brasil). Então, quem ganhar o referendo terá uma vantagem muito grande e certamente terá maioria na Assembléia Nacional, nos estados e nos municípios. De alguma maneira a oposição caiu numa armadilha. Se perderem, diminui muito sua possibilidade de crescimento, porque terão que reconquistar espaço. Isso não é muito bom para o sistema político venezuelano, porque diminui a possibilidade de se ter uma sociedade política mais pluralista.”

Emir Sader, entretanto, vê uma possível vitória de Chávez de maneira mais otimista. “O governo dele é claramente apoiado pelos setores mais pobres da população. Pela primeira vez, as massas têm capacidade de organização, se mobilizam. São elas as privilegiadas pelos 30% de royalties sobre o diesel do petróleo, que o governo investe em políticas sociais. É claramente uma luta de classes na Venezuela, uma luta de pobres contra ricos. E os pobres, pela primeira vez, têm a possibilidade de ação autônoma e de serem favorecidos por essa política. A vitória seria também um avanço em termo de democracia social na Venezuela”, afirma.

Derrota

O diretor do Núcleo de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), Alcidez Vaz, pondera que “a derrota do Chávez abre espaço para que a oposição se organize”. De qualquer forma, segundo ele, “qualquer dos resultados comporta possibilidades de recrudescimento, que elevem ainda mais a temperatura política a níveis de violência, como já ocorreu no passado”. Essa tendência, afirma, é particularmente preocupante no contexto atual da América Latina, “em que temos um conjunto de democracias fragilizadas e de crises de governabilidade e legitimidade”.

A deputada federal Maninha (PT-DF), que já está na Venezuela como observadora parlamentar, afirmou que, independente de Chávez ganhar ou não, a situação fica favorável para ele. Ela explica que, em caso de vitória, “ele sai extremamente reforçado, fortalecido, porque esmaga a oposição”. Mas, se perde, em um mês é convocada nova eleição, e o presidente pode concorrer. “Em qualquer situação, do ponto de vista do resultado político, quem sai ganhando nesse processo é sempre o presidente Chávez”.

Segundo Maninha, a oposição não tem um líder e não tem um programa de governo a apresentar para a população, algo que, segundo ela, o atual governo tem. “Acho que a situação para o presidente Chávez é muito mais confortável do que para a oposição”, ressaltou a deputada.
 
Agência Brasil

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