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Brasil

Biotecnologia ganha peso para as multinacionais

22 Set 2004 - 08h14
Se até pouco tempo atrás uma linha tênue separava os negócios de agroquímicos dos de biotecnologia, hoje boa parte das multinacionais que atuam nesses mercados já tem estratégias claramente distintas para cada atividade. Os agroquímicos, principalmente os herbicidas e inseticidas, seguem perdendo força, e é crescente a aposta dos grupos americanos e europeus em sementes melhoradas ou geneticamente modificadas.

Prova dessa tendência são os investimentos em biotecnologia em curso ou previstos pelas múltis Bayer (alemã), Monsanto (americana) e Syngenta (anglo-suíça), que somam US$ 700 milhões. E, ainda que em geral a biotecnologia represente a menor parte do faturamento dos grupos, no caso da Monsanto a relação já se inverteu e á área representou 60% das vendas mundiais em 2003, que totalizaram US$ 4,5 bilhões. Em 2000, o percentual foi de 31%, de acordo com Felipe Osório, diretor de marketing da companhia no Brasil.

Na Syngenta e na Bayer, a biotecnologia representa cerca de 3% do faturamento, mas as companhias projetam considerável crescimento nos próximos anos.

A Bayer, por exemplo, está investindo este ano 85 milhões de euros na divisão Bioscience para pesquisa e desenvolvimento de sementes. Os negócios do grupo, contudo, continuam focados em defensivos, sobretudo fungicidas para soja. Para Bernward Garthoff, diretor de tecnologia da Bayer Cropscience, "ainda há um longo ciclo de crescimento para os agroquímicos". Mas o foco em fungicidas reflete o avanço das sementes transgênicas tolerantes a herbicidas e a insetos.

Segundo Markus Heldt, vice-presidente da divisão de produtos agrícolas para América Latina da Basf, o mercado global de biotecnologia movimenta até 5 bilhões de euros, com potencial para atingir 30 bilhões de euros em 20 anos. Já o mercado mundial de defensivos, que movimenta mais de US$ 25 bilhões por ano, tende, para fontes do setor, a crescer a passos de tartaruga.

No Brasil, onde a liberação dos transgênicos ainda depende de lei que tramita no Senado, e o plantio e a comercialização de soja modificada tem sido aprovada por medidas provisórias, o setor de agroquímicos tem peso maior. O setor de defensivos movimentou US$ 3,1 bilhões em 2003 no país e deve crescer 8% neste ano, afirmou o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos Para Defesa Agrícola (Sindag). Já o setor de sementes, incluindo as não-transgênicas, negociou US$ 1,5 bilhão em 2003 e ficará estável em 2004, segundo a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem). Para Francisco Aragão, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, a tendência, se e quando os transgênicos forem aprovados, deve acompanhar a internacional.

Sem regras claras para transgênico no país, as múltis inibem seus investimentos em biotecnologia em suas plantas no país. Desde o ano passado, a Monsanto cobra royalties sobre a comercialização sementes de soja transgênica no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. As vendas da companhia ainda estão concentradas em sementes convencionais de soja, milho e algodão, além de herbicidas. Para Osório, as perspectivas são de que a biotecnologia atinja 50% do faturamento no Brasil (de US$ 550 milhões em 2003) no futuro.

Mais discretamente, o Brasil também já está nos planejamentos biotecnológicos das outras múltis. Em seu laboratório em Stein (Suíça), a Syngenta, por exemplo, desenvolve sementes melhoradas de milho e algodão. No algodão, está em curso um trabalho com uma nova semente resistente a pragas que atacam lavouras em climas quentes nos EUA, em regiões semelhantes às do Mato Grosso, segundo explicou Hubert Buholzer, diretor da laboratório de Stein.

Para especialistas, o avanço da biotecnologia pode de fato reduzir o mercado global de agroquímicos, e as multinacionais têm mesmo que caminhar na nova direção. Exceto pelos fungicidas, que, não por acaso, tiveram sua demanda ampliada no Brasil depois do surgimento da ferrugem da soja.

"Ainda não foi descoberta tecnologia que impeça o avanço de doenças causadas por fungos, o que garantirá o crescimento do segmento nos próximos anos", disse Heldt. O executivo estima que as áreas de herbicidas e inseticidas sofrerão mais impacto com o avanço da biotecnologia, principalmente produtos voltados para soja, milho e algodão. Ele preferiu não falar números, mas diz que a Basf redirecionou parte dos investimentos na pesquisa de herbicidas para fungicidas e inseticidas.

O executivo também prevê aumento das vendas de defensivos para hortifruticultura, mas por este ser ainda pouco explorado pelas empresas. No Brasil, o nicho representa 10% das vendas anuais de defensivos, ou US$ 313,6 milhões.

José Roberto Da Ros, vice-presidente do Sindag, reforça que já há uma redução das vendas globais de herbicidas para soja e de inseticidas para algodão, mas o movimento não chegou no Brasil. "Mesmo com a liberação de transgênicos, não é possível prever quantos produtores substituirão sementes convencionais pelas modificadas".

Anderson Galvão, da Céleres, observou que a soja transgênica demanda uma aplicação de herbicida, ante seis da cultura convencional. Para o algodão, a redução é de 17 para seis. "Os produtores brasileiros de soja transgênica deixaram de gastar até US$ 160 milhões com defensivos na safra 2003/04", afirmou. Para ele, a redução do uso de defensivos explica as aquisições recentes da Aventis CropScience pela Bayer e da Pioneer pela Du Pont.

Atenta à tendência, a Basf criou, em 2001, a divisão Basf Plant Science (BPS), com sede na Alemanha. Criada para desenvolver plantas transgênicas mais nutritivas ou resistentes a intempéries climáticas, a unidade tem parceria com universidades de vários países e um programa de investimentos de 700 milhões de euros em dez anos.
 
 
 
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