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Brasil

Antonio Néres fala sobre sua viagem ao Japão

2 Dez 2004 - 10h09

A MINHA VIAGEM AO JAPÃO PARTE II

 

 

*Antonio Néres

 

Foi bastante proveitosa sob todos os pontos de vistas, minha ida ao Japão no ano passado. Não só pelo fato de poder ter conhecido às principais cidades daquele incrível país, mas, sobretudo pela verificação do arrojo e determinação de um povo, que conseguiu superar tremendas adversidades e se tornar uma das maiores potências do mundo. Vou abordar um pouco deste país de talheres tão simples e escrita tão complicada.

Conheci o superexpresso “shinkansen”, o famoso trem bala, cujos trilhos são a espinha dorsal do Japão, ligando a ilha principal de ponta a ponta. Esse prodígio ferroviário começou a circular em 1964, ano da Olimpíada de Tókio e, é o símbolo de uma nação, ao mesmo tempo hospitaleira e impenetrável. Cidades, fábricas, lavouras e silos espocam na janela do trem em flashes, como telas da internet. O trem bala é vertiginoso como uma montanha russa. Chega a mais de 300 quilômetros por hora, mas também é suave como um elevador. Apesar da velocidade, não dá tranco ao partir ou parar.

Do meu lado um executivo não tira o olho do monitor do laptop. A espessura do aparelho equivale à do jornal que folheio, na tentativa de entender alguma coisa, algo realmente impossível.

O Monte Fujji aparece na janela, lá longe. Seu cume nevado. De 3776 metros, parece feito com a fumaça branca que sobe do mar de chaminés que ocupa o primeiro plano.

O Japão, segunda economia do planeta, é o quarto emissor de gás carbônico do mundo, com 0,32 bilhão de toneladas por ano. O país começou sua corrida em direção à ordem e ao progresso na esteira de um período confuso de pós-guerra. Após duas hecatombes atômicas, ninguém imaginava com nitidez, que o país pudesse passar por tamanha transformação.

Os japoneses são uma civilização admirável – exceto com as baleias. É até gozado: eles se mostram desolados ao cometer qualquer erro insignificante. Suas revistas eróticas são tão ingênuas, que até o vaticano as liberaria sem nenhum problema.

Mais da metade da população tem celular, mas ninguém os ouve tocar, são mantidos em modo vibratório.

Seria um erro pensar que a engenhosidade nipônica se restringisse a prédios, trens, computadores, robôs e, aparelhos eletrônicos, coisas que envolvem, alta tecnologia. Ela também se manifesta no modo admirável de trabalhar a madeira. Os japoneses também se surpreendem nas coisas prosaicas. É o caso do abajur de cabeceira com cúpula vazada que, quando girada, propicia luz de leitura. Ou então, do corta-unhas encapsulado que retém as aparas em seu interior.

A higiene é dez no Japão. Vendo como são as coisas, não é de admirar que o país ostente a menor taxa de mortalidade infantil do mundo. Os vidros são absolutamente impecáveis. Inexistem manchas de óleo ou bitucas de cigarros mesmo entre os trilhos das estações, locais que até na fina flor da Europa serve de lixeira suplementar. Um canteiro de obras em Tókio é mais limpo e organizado do que na maioria das cidades que já andei por aqui. As ruas são imaculadas. Vê-se o dono de um cachorro recolhendo os dejetos do animal, e para arrematar o serviço, limpando-lhe a retaguarda com papel higiênico.

Assim é o Japão, país de 127 milhões de habitantes em uma área que equivale ao tamanho de Mato Grosso do Sul, cuja grande revolução se passou pela consciência de seu povo, que ao contrário do corporativismo, clientelismo e desperdício que acontece claramente em nosso país, deu o máximo de si em prol de uma causa maior: o desenvolvimento da nação como um todo e, sobretudo a Educação sendo uma prioridade absoluta.

Uma das coisas que mais me impressionou durante a viagem ao Japão foi é a perseverança e o entusiasmo daquele povo. Para o japonês o impossível não existe. Qual nação poderia sacudir a poeira e dar a volta por cima com tanta dignidade em tão pouco tempo, após a devastação de uma guerra? Sinceramente, gostaria de ver, pelo menos um pouco do entusiasmo e da disciplina do povo nipônico na minha querida gente brasileira.

 

 

O autor é radialista e jornalista

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