Na madrugada em que a filha foi morta, a vida de José Domingues, de 35 anos, também parou. À reportagem do Campo Grande News, na capela onde se despede de Beatriz Benevides da Silva, 18 anos, ele resume o que sente em poucas palavras: “Parece que estou num sono profundo”.
O quarto caso de feminicídio em Mato Grosso do Sul em 2024 vitimou Beatriz Benevides da Silva, de 18 anos, assassinada pelo namorado Wellington Patrezi Batista Pereira, de 20 anos, em Três Lagoas. O crime ocorreu na madrugada de quarta-feira, após uma discussão do casal em seu apartamento no Bairro Novo Oeste 2. Beatriz havia se mudado de Corumbá para morar com o pai em Três Lagoas há menos de dois meses. Trabalhava em um posto de gasolina e estava otimista com seus planos futuros. O relacionamento, que parecia promissor inicialmente, terminou tragicamente quando Wellington confessou ter enforcado a namorada durante uma discussão doméstica.
O velório acontece na Capela Pax Mundial, em Campo Grande. É ali que José tenta juntar forças para falar da menina que, há menos de dois meses, tinha ido morar com o pai cheia de planos. “Meu coração está despedaçado. Ela queria morar comigo e foi. Morava em Corumbá e ia fazer dois meses que estava comigo. Conseguiu emprego num posto de gasolina, estava amando, ia comprar as coisas dela”, conta.
Segundo o pai, Beatriz falava com entusiasmo do relacionamento. “Ela dizia que tinha um ‘namorido’ que queria casar. Perguntou se tinha problema ele ir depois para Três Lagoas. Eu disse que não. Ele veio um mês depois.” Antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente, José conversou com o rapaz por telefone. “Perguntei o que ele queria com ela realmente”.
Quando o jovem chegou a Três Lagoas, ficou uma semana na casa do pai de Beatriz. O casal aguardava a desocupação do imóvel alugado onde passaria a morar. “Ele ficou lá em casa. Era tranquilo, não apresentava comportamento estranho. Tinha zelo, um cuidado diferente com ela. Eu achava que era uma pessoa maravilhosa. Sem eu falar nada, ele mesmo falou que ia levar ela no serviço e buscar. Ela mudou de horário, acordava um pouquinho mais tarde, ele fazia o pão, levava pra ela na cama", lembra.
No sábado passado, a família inteira ajudou na mudança. “Estava todo mundo empolgado. Ajudamos a levar as coisas. Estávamos felizes porque ela estava feliz".
José fala da filha com orgulho. “Ela tinha 18 anos, cabecinha no lugar, pensando em crescer. Chegava em casa, me chamava para tomar tereré. Eu ganhava um beijo dela". Beatriz deixa três irmãos. “Eu falava para eles que não precisava ser formado, mas tinha que ser igual à irmã: cabeça no lugar e ter a educação que ela tinha".
Entre uma lembrança e outra, o pai tenta compreender o que aconteceu. “Como teve capacidade de fazer isso com minha filha?” Mesmo devastado, ele diz que não cultiva ódio. “Eu não desejo mal a ele, porque não vai trazer minha filha de volta. Mas quero que ele pague pelo que fez. Eu queria entender da onde surgiu tanta raiva. Cadê a empolgação que estava dele vir pra cá? E ela arrumou tudo para ele. Eu estava tratando ele igual filho".
O caso - À polícia, Wellington Patrezi Batista Pereira afirmou que matou a namorada após discussões constantes. Em depoimento ao delegado Gabriel Sales, ele disse que o casal brigava por “coisas banais” da casa e do relacionamento. O casal é de Corumbá.
Na terça-feira (24), um trabalhador montou o armário comprado pelos dois no apartamento, no Bairro Novo Oeste 2, em Três Lagoas. Segundo o rapaz, Beatriz não teria gostado do serviço. Houve nova discussão quando ele foi buscá-la no trabalho. Já em casa, a briga continuou.
Wellington relatou que, em meio ao desentendimento, Beatriz pediu que ele deixasse o imóvel. Ele afirmou que tentou pegar a chave, foi mordido no braço e, nervoso, a enforcou com as duas mãos até que ela perdesse a consciência. Por volta das 3h55, o jovem procurou o quartel da Polícia Militar e confessou o crime. Os policiais foram até o apartamento na Rua Buriti e encontraram Beatriz já sem sinais vitais.
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