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Remédio para convulsões é usado para emagrecer e causa efeitos colaterais

15 Jan 2014 - 17h21Por Folha

Pessoas que usam o remédio topiramato, descoberto nos EUA em 1979 para combater convulsões, como emagrecedor relatam efeitos colaterais como adormecimento e formigamento em várias partes do corpo, náuseas, problemas de memória e muitas dificuldades com o reflexo motor, além de sonolência e dificuldade de concentração.

O uso com essa finalidade se tornou mais comum há dois anos, quando a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu a venda de emagrecedores à base de anfetaminas e restringiu a venda de sibutramina.

  Editoria de Arte/Folhapress  

A proibição foi derrubada recentemente pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados, mas essas substâncias ainda não voltaram às farmácias.

Enquanto isso, muitas pessoas com problemas de excesso de peso têm resolvido procurar o topiramato (Topamax). O remédio já tem sites criados por fãs e grupos de discussão.

Os efeitos colaterais relatados por usuários do remédio indicam risco para quem dirige automóveis ou máquinas ou que esteja envolvido em atividades que exijam alto grau de concentração.

Médicos afirmam que, como acontece com todo medicamento, o uso de topiramato requer atenção e cuidados por parte do profissional que o indica, mas também apontam que a droga pode de fato trazer benefícios a pessoas com excesso de peso.

DEPRESSÃO E PESO

A jornalista e especialista em comunicação Adriana Santos, 41, coordenadora do canal Minas Saúde, afirma ter começado a tomar topiramato por indicação de um psiquiatra. Ela diz ter sido sempre uma mulher magra, mas teve um aumento de peso durante um período de depressão. A doença, somada a medicamentos para combatê-la, fez com que Adriana engordasse quase 10 quilos.

"Tive formigamento nos pés e nas mãos e alterações de memória já nas primeiras semanas de uso. Mas, em compensação, o topiramato me ajudou no sono", afirma a jornalista, que perdeu rapidamente seis quilos e abandonou o medicamento após um ano. "Embora tenha me ajudado em uma fase da minha vida, eu acho que não tomaria o remédio novamente", diz.

Jaqueline da Silva afirma que está tomando o medicamento de 12 em 12 horas por prescrição de um endocrinologista. Ela relatou em um grupo de discussão os benefícios e efeitos colaterais que o medicamento vem causando.

"Tomo o remédio há cerca de um mês e já perdi 3,2 quilos. Mas, com os quilos, também se foi a paciência. Mas esse remédio realmente tira a fome", postou.

Já Fernanda Costa, 30, relatou sua infelicidade em ter de deixar o medicamento após perceber que ele a estava prejudicando ao ponto de impedir que tirasse o carro da garagem. Ela afirma que chegou a bater no carro do marido, durante uma manobra, e atribuiu o acidente ao uso do medicamento.

"Infelizmente tenho de usar os carros todos os dias para ir à faculdade", conta.

AÇÃO DA DROGA

O anticonvulsivante agiria numa área do cérebro que controla a saciedade, mas a substância também tem sido usada como coadjuvante no tratamento de transtornos de humor e até no combate à dependência de álcool e outras drogas.

Na história da medicina, vale dizer que não são incomuns medicamentos descobertos com uma finalidade que passam a ter uso completamente diverso.

Para o médico Henri Bischoff, especialista em controle do metabolismo, a proibição de anfetaminas pela Anvisa deixou os médicos "à mercê de medicamentos que não têm como objetivo o emagrecimento, mas como um de seus efeitos colaterais".

"As anfetaminas, bem ou mal, cumpriam seu papel de controle da compulsão alimentar", afirma Bischoff. "O topiramato tem como principal efeito [colateral] a retirada da fome à noite. Ele deve ser sempre iniciado em dose baixa para minimizar os efeitos [ruins]", declara.

O médico afirma que só indicaria o topiramato para emagrecer se o paciente tivesse índice de massa corporal maior que 30 (o que indica obesidade) e fosse refratário a outros medicamentos.

Segundo Danilo Antônio Baltieri, professor da Escola de Medicina Fundação ABC e integrante do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do HC, estudos apontam que usuários do topiramato têm redução de peso que vai de 6% a 16% nos primeiros quatro meses de uso.

Para o médico e psiquiatra, a atenção que o topiramato vem recebendo como emagrecedor é justificável, mas faltam registros científicos sobre o abuso dessa medicação.

Baltieri afirma ainda que o mecanismo neurobiológico pelo qual o medicamento leva à perda de peso não é totalmente conhecido.

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