A ausência chegou de forma repentina, no mesmo dia em que deveria haver celebração. No dia 5 de março, data do próprio aniversário, a cirurgiã-dentista e professora Fátima Corvalan partiu, deixando saudade, mas também um legado impossível de apagar.
Nos 40 anos em que deu aula na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Fátima ajudou a formar gerações de profissionais e construiu uma trajetória que ajuda a contar a própria história da odontologia no Estado. Ao longo dos anos, foram títulos, reconhecimento e um trabalho marcado pelo compromisso com o outro, especialmente com pacientes em situação de vulnerabilidade.
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Formada em 1978, na então Universidade Estadual de Mato Grosso, a professora fez especialização em Saúde Pública pela Fiocruz, mestrado pela USP (Universidade de São Paulo) e doutorado em Ciências da Saúde. Fátima foi referência em odontologia oncológica (ramo que trata de cuidados bucais de pacientes com câncer) e no atendimento a pacientes com necessidades especiais, atuando em projetos sociais, hospitais e programas de diagnóstico precoce do câncer.
Fátima foi referência em odontologia oncológica e no atendimento a pacientes com necessidades especiais
Mas, para além do currículo, o amor pela profissão era o que impressionava. Pelos olhos do filho, Victor Hugo Corvalan, Fátima a mãe era incansável. “Ela nunca parou. Sempre foi batalhadora, sempre estudando, sempre buscando. A maior lição que ela me deixou foi ajudar o outro sem olhar a quem”, resume.
Ele conta que a mãe não media esforços para atender pacientes, mesmo fora do ambiente formal de trabalho. Recusava remuneração em alguns casos e aceitava apenas o necessário para continuar ajudando.
“Teve uma época que ela estava em um projeto social e ofereceram pagamento, mas ela disse pra que dessem só o combustível para ir e voltar. Ela fazia tudo com amor”, relembra.
Fátima ao lado do filho, Victor, que tem na mãe um exemplo de ser humano.
A irmã, Ana Corvalan, lembra que a dedicação muitas vezes ultrapassa horários e até o próprio cansaço. “Ela atendia crianças com câncer, pessoas com deficiência e pacientes em situações delicadas. Muitas vezes ligavam tarde da noite e ela ia, não tinha hora. Era natural dela”, conta.
Dentro de casa, essa mesma disposição virava cuidado. Para os irmãos, Fátima era uma espécie de segunda mãe. “Sempre cuidando da gente, protegendo. Era a nossa ‘mãezona’”, diz Ana. Entre os oito irmãos, Fátima ocupava naturalmente esse lugar de referência, alguém que acolhia e estava sempre por perto.
Nos últimos meses, Ana acompanhou a irmã em viagens a trabalho e por diversão. Juntas, percorreram destinos como Paraná, Argentina e Paraguai. “A convivência era ótima, nunca brigamos. Era sempre uma cuidando da outra”, lembra.
As irmãs Fátima e Ana Corvalan nas montanhas em Bariloche, durante viagem à Argentina.
Victor também guarda memórias afetivas do cotidiano. Mesmo com uma carreira intensa, a mãe encontrava formas de estar presente. “Nossa relação sempre foi muito boa. Ela me ensinou muito pelo exemplo, principalmente sobre não parar de aprender e fazer o bem dentro do que está ao seu alcance”, conta.
O último encontro entre mãe e filho foi no dia da morte da professora. Eles almoçaram juntos em casa e horas depois Fátima sofreu um infarto. “O último momento foi esse almoço. A gente estava bem, fazendo planos, ela cheia de projetos”, detalha.
Projetos, aliás, não faltavam. Mesmo após a aposentadoria, a cirurgiã-dentista continuava ativa, viajando para palestras e escrevendo um livro sobre humanização na odontologia, obra que agora a família pretende publicar como forma de perpetuar seu pensamento.
Professora partiu no dia 5 de março e deixou legado de amor pela educação e respeito ao próximo.
A dimensão do impacto que Fátima deixou foi vista na despedida. Instituições, colegas, alunos e pacientes se reuniram para prestar homenagens. Foram dezenas de coroas de flores e a presença constante de pessoas que, de alguma forma, tiveram a vida tocada por ela. “Foi um conforto ver o quanto ela era amada”, afirma o filho.
Para a irmã, o sentimento que fica é o de missão cumprida. “Ela tinha uma dedicação enorme pelo ser humano e isso é algo que ela deixa como legado”, finaliza.
Filho guarda com carinho parte dos prêmios recebidos pela mãe
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