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Ponte científica: da universidade ao laboratório, pesquisa chega a exames periciais em MS

Parceria com a UFMS aproxima estudantes da prática forense e transforma estudos acadêmicos em métodos aplicados pela Polícia Científica

19 Jun 2026 - 10h17Por Redação Fátima News

Brenda Pache Moreschi chegou ao laboratório de química e toxicologia do IALF (Instituto de Análises Laboratoriais Forenses), da PCi-MS (Polícia Científica de Mato Grosso do Sul), em 2019, ainda durante a graduação em Química Tecnológica pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). O estágio voluntário aproximou o interesse pela perícia criminal do trabalho de um laboratório oficial, onde cada análise exige método, rastreabilidade e responsabilidade sobre a prova pericial.

A experiência abriu caminho para o trabalho de conclusão de curso, o mestrado, o doutorado e a atuação profissional na área de cromatografia. Também ajuda a explicar um dos efeitos do trabalho conjunto entre a Polícia Científica e a UFMS: aproximar estudantes da prática técnica da perícia e transformar questões laboratoriais em estudos aplicados.

Entre os estudos desenvolvidos nesse intercâmbio está a pesquisa sobre bromadiolona, substância presente em rodenticidas, produtos usados no controle de roedores. A metodologia foi desenvolvida para detectar a substância em amostras de interesse forense e biológico.

“Já estamos usando essa metodologia para analisar conteúdo gástrico de cães e gatos com morte suspeita de envenenamento”, destaca Evandro Rodrigo Pedon, chefe da DQT (Divisão de Química e Toxicologia) do IALF.

O uso pela DQT mostra como um estudo acadêmico pode retornar ao laboratório oficial como ferramenta de apoio aos exames. A análise pode fornecer elemento técnico para avaliar a presença da substância na amostra e subsidiar a apuração dos casos encaminhados à perícia.

Formalizada em 2021, a cooperação entre a Polícia Científica, por meio da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), e a UFMS completa cinco anos em 2026 e alcança diferentes áreas da perícia oficial. No IALF, uma das frentes desse vínculo se desenvolve na Divisão de Química e Toxicologia, em diálogo com o Inqui (Instituto de Química) da universidade.

Foi nesse contexto que Brenda retornou ao laboratório, em 2021, para cumprir o estágio obrigatório. Na DQT, desenvolveu o trabalho de conclusão de curso voltado à validação de método analítico por cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas para determinação de cocaína em materiais apreendidos em Mato Grosso do Sul.

Segundo a diretora do IALF, Josemirtes Socorro Prado da Silva, no recorte da Divisão de Química e Toxicologia, a aproximação com a universidade se organiza em duas frentes: pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico, voltados à pós-graduação, e estágio supervisionado, destinado a graduandos dos cursos de Química e Farmácia-Bioquímica.

Na prática, a DQT coloca estudantes e pesquisadores em contato com matrizes complexas, procedimentos de laboratório oficial e exigências da cadeia de custódia, conjunto de procedimentos que preserva a integridade da prova pericial desde a coleta até o laudo. O Instituto de Química contribui com orientação acadêmica, desenvolvimento científico e metodologias analíticas.

A produção científica também é parte do resultado. Segundo a diretora do IALF, os estudos desenvolvidos no âmbito da parceria não se limitam à formação acadêmica.

“Trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado, teses de doutorado e artigos publicados em revistas internacionais já foram desenvolvidos no âmbito da parceria, contribuindo diretamente para o aprimoramento de metodologias analíticas utilizadas na rotina pericial”, afirma.

O professor adjunto do Inqui, doutor Bruno Gabriel Lucca, orienta pesquisas desenvolvidas no âmbito da cooperação e estima cerca de dez projetos concluídos ou em andamento no período da parceria. Para ele, uma das contribuições está na transferência de tecnologia para a atividade pericial.

“Há métodos que desenvolvemos durante a pesquisa e que hoje os peritos usam na elaboração de laudos”, observa o doutor.

A publicação em revistas científicas internacionais cumpre uma função que vai além do reconhecimento acadêmico. Ela documenta o desenvolvimento do método, submete os resultados à avaliação da comunidade especializada e permite que a experiência da perícia oficial dialogue com pesquisadores de outras instituições.

No caso da bromadiolona, o artigo descreve um método eletroquímico portátil e de baixo custo aplicado à triagem da substância em amostras de interesse forense. O caso mostra como uma questão técnica identificada no laboratório pode ser estudada na universidade e retornar ao serviço público como ferramenta de apoio aos exames.

Esse movimento também aparece em outros estudos produzidos no âmbito da parceria, com trabalhos voltados a substâncias de interesse forense, como praguicidas e canabinoides sintéticos. Para a Polícia Científica, o ganho está na possibilidade de ampliar o repertório técnico, registrar metodologias e fortalecer a discussão científica em torno de exames que subsidiam laudos periciais.

No caso de Brenda, a experiência no laboratório orientou os passos seguintes. Depois do estágio, ela concluiu mestrado em Química Analítica pela UFMS, segue no doutorado na mesma área e atua como gerente técnica em uma empresa de análises ambientais. A cromatografia, técnica usada para separar, identificar e quantificar substâncias em uma amostra, tornou-se o eixo da formação acadêmica e da trajetória profissional dela.

“Tornar-me cromatografista abriu portas que eu não imaginava que um dia poderiam se abrir”, relata Brenda.

Em Mato Grosso do Sul, a condição de Estado de fronteira, a diversidade de substâncias encaminhadas à PCi-MS e o surgimento contínuo de novas drogas sintéticas exigem atualização permanente dos métodos laboratoriais. Nesse contexto, o diálogo com a universidade permite estudar, testar e documentar procedimentos que podem retornar ao serviço público como suporte aos exames.

Para a Justiça e para a população, o resultado aparece na produção de elementos técnico-científicos que podem esclarecer suspeitas, orientar investigações e subsidiar laudos periciais.

Maria Ester Jardim Rossoni e Emilly Nunes Oliveira, Comunicação PCi-MS

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