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Coronavírus: o perigo pode estar no ar, alertam cientistas chineses

Estudo desenvolvido por cientistas chineses indica que o Sars-Cov-2 se propaga no ambiente. Foram analisadas amostras colhidas no interior de hospitais e em áreas públicas próximas. Novas pesquisas serão realizadas para verificar o potencial de transmissã

28 Abr 2020 - 15h23Por Correio Braziliense

A hipótese de que o Sars-CoV-2, causador da Covid-19, pode se espalhar pelo ar ganhou reforço com um estudo publicado online por cientistas chineses no site da revista Nature. Até agora, é certeza que o vírus pode ser transmitido pelo contato direto com pessoas infectadas, superfícies contaminadas ou inalação de gotículas respiratórias de indivíduos com a doença. O potencial de disseminação aérea, porém, ainda é incerto.

No trabalho asiático, os pesquisadores da Universidade de Wuhan — epicentro da epidemia na China — investigaram a presença do Sars-CoV-2 próximo a dois hospitais que, em fevereiro e março, ficaram exclusivamente dedicados aos pacientes de Covid-19. Liderados por Lan Ke, diretor do Laboratório Estadual de Virologia da instituição, os cientistas recolheram amostras do ar ao redor desses centros de tratamento e também dentro do Hospital Universitário Renmin e do Hospital de Campanha Wuchang Fagncang, um estádio esportivo convertido para atender os pacientes.

Para verificar se havia Sars-CoV-2 nas amostras, os pesquisadores fizeram exames de detecção do RNA viral. A concentração do material nas enfermarias, locais ventilados e constantemente desinfetados, foi baixa. Contudo, os banheiros, sem ventilação, continham concentrações elevadas no ar. Segundo Lan Ke, as áreas usadas pela equipe médica para tirar roupas de proteção eram as mais contaminadas pelo vírus. A conclusão é a de que o micro-organismo consegue ficar suspenso no ar.

Circulação

Em seguida, os pesquisadores examinaram as concentrações de RNA do Sars-CoV-2 em áreas públicas fora dos hospitais — como edifícios residenciais e supermercados. O material genético do vírus foi detectado, porém em quantidades muito baixas. As exceções foram duas regiões bastante movimentadas, sugerindo, segundo os autores, que indivíduos infectados que circularam por esses locais podem ter contribuído para os aerossóis virais detectados.

“As conclusões desse estudo fornecem a primeira evidência no mundo real, fora de laboratório, sobre as características aerodinâmicas do Sars-CoV-2 transportado pelo ar em Wuhan”, escreveram os autores. Eles observaram que o tamanho da amostra na pesquisa foi pequeno, com menos de 40 recolhidas em 31 locais.

Os cientistas recomendam que seja dada atenção à ventilação e à esterilização adequadas dos banheiros; adotadas medidas de proteção pessoal, como usar máscaras e evitar multidões, para reduzir o risco de exposição ao vírus no ar. Também recomendam higienização cuidadosa de áreas de alto risco em hospitais; e do vestuário, antes e depois da remoção dos itens de proteção individual.

“Embora não tenhamos estabelecido a infectividade do vírus detectado nessas áreas hospitalares, propomos que o Sars-CoV-2 tenha o potencial de ser transmitido por aerossóis”, especulam os autores, acrescentando que mais pesquisas são necessárias para confirmar essa questão.

O fato de o RNA do vírus ter sido detectado no ar não confirma que ele pode infectar uma pessoa por esse meio, contudo. Outros estudos já haviam identificado o material genético do Sars-CoV-2 na atmosfera, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS), com base em algumas evidências científicas, já informou que não se pode afirmar que partículas virais sejam capazes de contaminar.

Nem todos os pesquisadores estão convencidos disso. “A análise do padrão de propagação inicial da Covid-19 na China sugere vários casos de transmissão sem contato direto com pessoas infectadas, especialmente em áreas fora de Wuhan”, observa  Lidia Morawska, pesquisadora da Universidade Tecnológica de Queensland, na Austrália, especialista em ciências atmosféricas.

“Em vários navios de cruzeiro onde milhares de pessoas a bordo foram infectadas, muitas das infecções ocorreram depois que os passageiros tiveram que se isolar em suas cabines, apesar de a higiene das mãos ter sido implementada”, continua. “Portanto, o sistema de ventilação pode ter espalhado o vírus no ar entre as cabines.”

De acordo com ela, o antecessor do novo coronavírus, o Sars-CoV-1, causador da Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) se espalhou no ar, no surto de 2003. Morawska diz que vários estudos explicaram, retrospectivamente, essa via de transmissão no Hospital Prince of Wales de Hong Kong, bem como em instalações de saúde em Toronto, Canadá.

De acordo com a pesquisadora, gotículas contendo o vírus começam a evaporar imediatamente depois de serem exaladas, e algumas são tão pequenas que conseguem viajar em correntes atmosféricas, em vez de ir para o chão, como as grandes fazem. “Essas gotículas muito pequenas podem levar seu componente viral por metros, até dezenas de metros, distantes da pessoa infectada.”

Morawska explica que medidas como ventilação natural, distanciamento social e evitar equipamentos que reciclam o ar são essenciais para evitar a contaminação do vírus pela atmosfera.

Refrigeração

Uma outra pesquisa também sugere a contaminação pelo ar.  No caso, pelo sistema de ar- condicionado. Trata-se de um estudo de caso, publicado no site do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos. O relato mostra como o sistema de refrigeração de um restaurante pode ter ajudado a infectar pelo menos nove pessoas com o Sars-CoV-2. Embora existam limitações importantes na pesquisa — que não foi revisada por especialistas —, esse é um dos primeiros relatos sugerindo que o ar-condicionado poderia desempenhar um papel na transmissão da Covid-19.

Em 24 de janeiro, pelo menos 83 pessoas almoçaram em um restaurante sem janelas, no terceiro andar de um edifício alto na cidade chinesa de Guangzhou. Entre elas, havia uma família de quatro pessoas (conhecida como família A) que havia retornado no dia anterior de Wuhan, a cidade epicentro da epidemia na China.

Mais tarde, naquele mesmo dia, uma das pessoas dessa família começou a se sentir doente, com um súbito aparecimento de febre e de tosse, e foi ao hospital. Em 5 de fevereiro, nove pessoas que almoçaram no restaurante em 24 de janeiro —incluindo quatro da família A, bem como cinco integrantes de duas outras famílias que estavam sentadas nas mesas vizinhas (chamadas de B e C) — foram diagnosticadas com Covid-19.

Os pesquisadores sugerem que o vírus pode ter entrado no fluxo de ar de uma unidade de ar-condicionado, que espalhou gotículas contaminadas pelo restaurante não ventilado. O estudo acompanhou os clientes que compareceram ao restaurante durante o horário do almoço, observando onde estavam sentados, e traçaram o possível caminho das transmissões aéreas, desde os aparelhos de ar condicionado do estabelecimento.

Segundo os autores, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Guangzhou, ficou claro que todos os que foram infectados estavam no mesmo caminho do fluxo de ar que o paciente infectado A1. Os que não se situaram nesse local, por outro lado, não foram infectados. “Concluímos que, nesse surto, a transmissão de gotículas foi motivada pela ventilação com ar condicionado. O fator chave para a infecção foi a direção do fluxo de ar”, escrevem os pesquisadores. 

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