Ao abrir a Bíblia e perguntar “o que ela diz sobre crianças?”, vale lembrar que a ideia de infância mudou ao longo da história. O que hoje associamos a infância – afeto, proteção, escola, brincadeira e direitos – nem sempre existiu do mesmo modo. Em muitas culturas, crianças foram tratadas como “adultos em miniatura”, com pouca voz e muita cobrança.
No Brasil e em outros países, a infância foi marcada muitas vezes por exploração, maus-tratos, abuso e violência, reforçando uma visão utilitarista da criança como mão de obra precoce[. E isso não ficou no passado: em tempos de crise o trabalho infantil tende a crescer, e o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) alerta que o cenário piorou em anos recentes, especialmente desde 2020. Para muitos, a infância ideal ainda é privilégio.
Com esse pano de fundo, a mensagem bíblica ganha força e necessidade. Ao falar de crianças, as Escrituras Sagradas sustentam duas verdades ao mesmo tempo: vulnerabilidade e valor.
Antigo Testamento
No Antigo Testamento, filhos e filhas aparecem como bênção e esperança. As promessas feitas a Abraão e aos patriarcas colocam a descendência no centro do futuro do povo (Gênesis 12:2-3) e os Salmos celebram os filhos como presente de Deus (Salmos 113:9; 127:3-5; 128:3-4).
O nascimento é descrito com alegria e significado e a escolha do nome conecta aquela vida à experiência de fé da família. A Bíblia também registra o cuidado cotidiano: amamentação prolongada, desmame celebrado e a imagem da criança tranquila no colo materno como metáfora do cuidado de Deus (Gênesis 21:7-8; 1 Samuel 1:24; 2 Crônicas 31:16; Salmos 131:2; Isaías 66:11-12). Além disso, crianças não eram acessórios da vida religiosa: faziam parte da comunidade da aliança, presentes em festas e nas promessas proféticas de restauração (Êxodo 10:9; Joel 2:28).
Mas o texto bíblico não romantiza a realidade. Crianças aparecem como vítimas de guerras, fome, deportações, violência, cativeiro e escravidão. E, nesse cenário, os órfãos surgem como os mais expostos. Por isso, muitas vezes aparecem ao lado de viúvas e estrangeiros, grupos facilmente explorados. A mensagem é direta: oprimir vulneráveis é injustiça grave e Deus não fica indiferente.
Daí um dos retratos mais fortes da Bíblia: Deus se apresenta como “Pai dos órfãos” (Salmos 68:5) e defensor de quem não possuem voz (Salmos 10:14). Ele denuncia sociedades que oprimem os fracos e chama seu povo a uma justiça prática. Fé sem compromisso com o cuidado se torna religiosidade vazia; proteger os pequenos faz parte do que significa viver a aliança.
Outro ponto decisivo: na lógica bíblica, a criança é tratada como pessoa por inteiro, com identidade e história diante de Deus, inclusive no ventre. A linguagem bíblica sugere continuidade entre o bebê ainda não nascido e o adulto que ele se tornará. Textos como o Salmo 139 descrevem a formação no ventre com intimidade, propósito e dignidade, ao mesmo tempo em que a Bíblia reconhece a realidade moral do pecado e o cuidado divino desde os primeiros dias.
Novo Testamento
No Novo Testamento, isso contrasta com o mundo greco-romano, onde o abandono de bebês, infanticídio e exploração eram tolerados. Nesse ambiente, Jesus age de modo revolucionário: chama as crianças para perto, acolhe, abençoa, diz “deixem vir” e as coloca como modelo de confiança e humildade. E alerta com seriedade contra quem faz mal aos pequeninos. A igreja primitiva segue essa direção: ao invés de tratar crianças como propriedade, fala de responsabilidade, cuidado e formação. Aa cartas aos efésios e colossenses mostram crianças ouvindo as cartas junto com os adultos, como parte real da comunidade.
Tudo isso diz muito à igreja hoje. A criança tem valor intrínseco: não vale porque “vai virar um adulto útil”, mas porque é gente, imagem de Deus, alvo do cuidado do Senhor. Daí perguntas inevitáveis: nossas igrejas são seguras para crianças? Elas têm espaço real, ou só ficam “ocupadas”? E quando estão em risco, a comunidade se torna família?
Se há um precedente moral claro, é este: proteger os vulneráveis não é opcional. Crianças podem ser frágeis, mas são preciosas. Uma igreja que segue o Senhor aprende a tratá-las como Ele trata: com cuidado, valorização e proteção.
Vinicius Cardoso von Mengden é professor de teologia e coordenador de pós-graduação do SALT-FAP (Faculdade Adventista do Paraná).
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