Dourados permanece, pelo terceiro ano consecutivo, entre os dez municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes com as maiores taxas de estupro e estupro de vulnerável. Os dados constam na edição deste ano do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta quinta-feira (23) com dados de 2025.
No ranking nacional, elaborado com municípios de população igual ou superior a 100 mil habitantes, Dourados ocupa a sexta posição, com taxa de 84,8 casos de estupro e estupro de vulnerável por 100 mil habitantes. A primeira colocação é de Boa Vista (RR), com taxa de 110,8.
O levantamento também mostra que Mato Grosso do Sul possui a quinta maior taxa de estupro do país. À frente do Estado aparecem apenas Roraima, Rondônia, Acre e Amapá.
Segundo o Anuário, não é por acaso que as unidades da federação citadas estão entre aquelas com maiores índices. O estudo aponta que essas unidades da federação compartilham características territoriais e socioeconômicas, como a expansão de atividades extrativistas e agropecuárias, o desmatamento, o garimpo, a presença de extensos territórios e populações indígenas, além da atuação de facções criminosas.
Quando o recorte considera apenas a população feminina, o cenário é ainda mais preocupante. Mato Grosso do Sul registra taxa de 142,6 estupros para cada 100 mil mulheres, a quarta maior do Brasil, atrás apenas de Roraima (220,1), Acre (172,5) e Rondônia (165,6).
Queda nacional
Pela primeira vez desde a pandemia da Covid-19, o Brasil registrou redução no número de estupros comunicados às polícias. Em 2025, foram contabilizados 84.388 casos, o equivalente a uma taxa de 39,5 registros para cada 100 mil habitantes.
Apesar da queda, o Anuário faz um alerta: o dado não significa, necessariamente, que houve redução da violência sexual. Segundo os pesquisadores, os registros refletem tanto a incidência da violência quanto a capacidade da sociedade e do Estado de identificá-la. Assim, a diminuição pode representar também um aumento da subnotificação e uma redução das denúncias.
Em 2025, os registros de estupro caíram 6%, enquanto os de estupro de vulnerável recuaram 5,2%.
Do total de ocorrências registradas no país, 64.990 foram classificadas como estupro de vulnerável e 19.398 como estupro. Isso significa que 77% dos casos envolveram crianças e adolescentes menores de 14 anos, confirmando que a violência sexual no Brasil atinge, principalmente, esse público.
Além disso, o Anuário revela que meninas e mulheres representam 93,3% das vítimas de estupro registradas em 2025. Nos casos de estupro de vulnerável, meninas de até 14 anos correspondem a 85,6% das vítimas.
As taxas também evidenciam essa realidade, foram registrados 16,5 estupros e 51,3 estupros de vulnerável para cada 100 mil mulheres.
O estudo destaca, entretanto, que a violência sexual contra homens também é marcada pela subnotificação. Eles representam 6,7% das vítimas de estupro e 14,4% das vítimas de estupro de vulnerável, sendo a maioria crianças e adolescentes, cujas denúncias costumam partir de familiares, escolas ou serviços de saúde.
Em relação ao perfil étnico-racial, pessoas negras concentram 57,1% das vítimas, seguidas pelas brancas (41,4%). Indígenas representam 1,1% dos registros e pessoas amarelas, 0,3%.
Em Dourados, um caso envolvendo uma criança indígena chamou atenção em julho do ano passado. No dia 18 de julho de 2025, um homem de 23 anos, morador da Reserva Indígena de Dourados, foi preso em flagrante acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 11 anos, na Aldeia Bororó.
Segundo o boletim de ocorrência, a criança caminhava pela região quando foi abordada pelo suspeito nas proximidades de um campo de futebol. O homem tentou manter relação sexual com a vítima, que conseguiu fugir e pedir ajuda à família. Lideranças indígenas localizaram e detiveram o suspeito até a chegada da Polícia Militar. Ele foi encaminhado à Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac), onde foi autuado em flagrante.
Crimes dentro de casa
Outro dado que chama atenção é o local onde a violência ocorre. Em 2025, 57,6% dos estupros foram registrados dentro de residências. Nos casos de estupro de vulnerável, esse percentual sobe para 64,9%.
O Anuário destaca que, historicamente, o ambiente doméstico consolidou-se como o principal cenário da violência sexual. Em vez de representar um espaço de proteção, a residência frequentemente se torna um ambiente de extrema vulnerabilidade, onde relações de afeto, confiança e dependência são utilizadas para silenciar vítimas e manter os abusos longe do conhecimento das autoridades.
A via pública aparece como o segundo principal local das ocorrências, concentrando 16% dos casos de estupro e 6,5% dos de estupro de vulnerável. Também foram registradas ocorrências em instituições de ensino (2,6%), estabelecimentos de saúde (2%), estabelecimentos comerciais (1,9%), ambiente virtual (0,7%) e instituições religiosas (0,1%).
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