Wagner Cordeiro Chagas
(Mestre em História pela UFGD e professor da rede estadual em Fátima do Sul)
No início do século 20, o então sul de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul) viu ser executada uma importante obra de infraestrutura que alavancou essa porção do antigo estado, fez nascer cidades como Água Clara e Ribas do Rio Pardo e ajudar a desenvolver Campo Grande. Era a ferrovia Noroeste do Brasil (NOB) que trazia o trem, considerado sinônimo de progresso, para essas terras.
Com base na pesquisa do historiador Paulo Roberto Cimó Queiroz, o trem saia de Bauru, estado de São Paulo, entrava em Mato Grosso por Três Lagoas (atravessava o rio Paraná, inicialmente por balsas e depois pela ponte ferroviária, inaugurada em 1926), passava por Campo Grande e de lá seguia rumo a Porto Esperança, às margens do rio Paraguai. Mais tarde, com a construção da ponte sobre aquele rio, o mesmo conseguiu chegar até a cidade Corumbá, na fronteira com a Bolívia.
Desde 1914, quando o trem chegou a Campo Grande, já se pensava numa rota para que a ferrovia também chegasse à fronteira com o Paraguai. No entanto, o projeto só foi concluído em 1953, saindo de Campo Grande, da estação de Indubrasil, passando por Sidrolândia, Maracaju, Itahum e chegando a Ponta Porã na divisa com o Paraguai. Era o ramal de Ponta Porã.
Foi esse ramal que ajudou a trazer muitas pessoas para a região que hoje corresponde aos municípios de Douradina, Fátima do Sul, Vicentina, Jateí, Glória de Dourados, Deodápolis e uma pequena parte de Angélica (o distrito de Ipezal), a partir do final da década de 1940, quando se iniciava a distribuição das terras da Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND), programa de colonização feito pelo governo Getúlio Vargas que doou terras para a população pobre, dando origem a esses municípios.
A historiadora Suzana Naglis confirma isso ao citar em sua pesquisa de mestrado pela UFGD, que muitos colonos usaram o trem, principalmente aqueles que vinham do Nordeste, de caminhão, e ao chegarem no estado de São Paulo embarcavam no trem com destino a Mato Grosso. Ao chegarem na estação de Itahum o percurso até a atual Fátima do Sul e demais cidades oriundas da CAND era por meio da jardineira, uma espécie de ônibus. Além do transporte de passageiros, a estação de Itahum também foi muito utilizada para o escoamento da produção agrícola dessas terras até a abertura da estrada que liga Fátima do Sul à divisa com São Paulo, a atual BR-376.
Os anos passaram e os trabalhadores que vieram em busca de um pedaço de terra para trabalhar e ajudar a sustentar o Brasil contribuíram na formação dos municípios citados. Pesquisas recentes mostraram que essas terras não eram “vazias” como dizia o governo da época. Existiam indígenas em algumas partes. Entre momentos gloriosos de crescimento econômico e populacional, e, depois saída de muitos colonos para outras regiões do país, e queda no número de habitantes, essa parte do Brasil, sem dúvidas, deu suas contribuições para o desenvolvimento, tendo na extinta ferrovia uma importante parceira.
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