Mato Grosso do Sul foi o estado brasileiro que mais perdeu superfície de água em 2025, com redução de 527 mil hectares em relação à média histórica dos últimos 40 anos. O resultado reflete a crise hídrica que atinge o Pantanal, bioma que registrou volume de água 56% abaixo da média histórica e permaneceu durante todos os meses do ano em situação de déficit hídrico.
Os dados do MapBiomas Água mostram que Corumbá lidera o ranking nacional de perdas entre os municípios, o que indica impactos cada vez mais severos das secas prolongadas na maior área úmida contínua do planeta.
O levantamento integra a iniciativa MapBiomas, que monitora anualmente a dinâmica dos recursos hídricos e as transformações na cobertura e no uso da terra em todo o território brasileiro.
Bacia do Paraguai concentra as maiores perdas
Mato Grosso, estado vizinho a Mato Grosso do Sul, também registrou uma redução expressiva de 336 mil hectares. Juntos, os dois estados abrangem a Região Hidrográfica do Paraguai. Nela se concentra grande parte do Pantanal e que apresentou um dos cenários mais críticos do país. Em 2025, a bacia perdeu 877 mil hectares de superfície de água em comparação com a média histórica, o equivalente a uma diminuição de 53,8%.
O impacto da seca fica ainda mais evidente nos municípios pantaneiros. Corumbá apresentou a maior perda de superfície de água entre todos os municípios brasileiros, com redução de 474 mil hectares, o que representa queda de 56,7% em relação à média histórica. Aquidauana também aparece entre os municípios mais afetados, com perda de 71 mil hectares, equivalente a uma retração de 69,7%.
Além disso, sub-bacias da região do Alto Paraguai que abrangem Mato Grosso do Sul registraram quedas expressivas. A sub-bacia do Nabileque perdeu 147 mil hectares de superfície de água (-89%), enquanto Taquari 02 registrou redução de 219 mil hectares (-45,6%) e Paraguai Pantanal 01 perdeu 276 mil hectares (-56,9%).
Dinâmica das águas

Pantanal em Mato Grosso do Sul. (Henrique Arakaki, Midiamax)
Mariana Dias, pesquisadora da equipe Pantanal do MapBiomas, destaca que a dinâmica hídrica do bioma mudou significativamente nas últimas décadas.
“A dinâmica das águas no Pantanal mudou; a década de 1980 foi marcada por grandes inundações, mas desde 2019 a região enfrenta secas prolongadas. Os períodos secos e úmidos são essenciais para a manutenção da biodiversidade do bioma”.
Segundo ela, a Bacia do Alto Paraguai e os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul refletem essa dinâmica registrada pela variação da água no Pantanal.
Para se ter uma dimensão das mudanças no bioma, o Pantanal perdeu mais de 1,7 milhão de hectares de vegetação nativa desde 1985. No mesmo período, a atividade minerária avançou 60% e as áreas de pastagem quadruplicaram, segundo dados do MapBiomas. Principal característica do Pantanal, a inundação sofreu uma drástica redução nas últimas décadas. Em 1985, a água cobria 24% do território do bioma, mas em 2024, ocupava apenas 3% da área.
A expansão das atividades agropecuárias no planalto — região onde nascem os rios que abastecem e inundam a planície pantaneira — tem impacto direto na redução das áreas alagadas e contribuiu para a seca histórica registrada em 2024. Em Mato Grosso do Sul, o planalto da Bacia do Alto Paraguai perdeu 2,1 milhões de hectares de vegetação nativa nos últimos 40 anos, uma redução de 40%, enquanto a área destinada à agricultura cresceu 5,9 vezes no mesmo período.
Pantanal abaixo da média histórica

Fotografia dos animais buscando água em meio à seca. (Henrique Arakaki, Midiamax)
O Pantanal encerrou 2025 com 679 mil hectares de superfície de água, valor 56% inferior à média histórica de 1,56 milhão de hectares registrada entre 1985 e 2025. Embora tenha ocorrido recuperação de 34% em comparação com 2024, — quando o bioma enfrentou a pior seca da série histórica, com apenas 506 mil hectares de água — os níveis permanecem muito abaixo do padrão observado ao longo das últimas quatro décadas.
Além disso, o bioma foi o único do país a registrar todos os meses de 2025 com superfície de água abaixo da média histórica. Atualmente, mais de 99% da água presente no Pantanal é de origem natural, o que torna o bioma ainda mais vulnerável às variações climáticas e hidrológicas.
Estabilidade no Cerrado
Enquanto o Pantanal segue enfrentando um cenário de forte déficit hídrico, o Cerrado, bioma que ocupa parte significativa de Mato Grosso do Sul, apresentou sinais de estabilidade em 2025. O bioma registrou 1,6 milhão de hectares de superfície de água, com leve aumento de 0,4% em relação ao ano anterior. Diferente do Pantanal, todos os meses de 2025 ficaram acima da média histórica da superfície de água.
Apesar do desempenho mais favorável, o Cerrado se destaca pela forte presença de corpos hídricos artificiais. Apenas 34,4% da superfície de água do bioma é natural, enquanto mais da metade (55,1%) está associada a reservatórios de hidrelétricas, a maior proporção entre todos os biomas brasileiros.
Ou seja, ainda que sofra diretamente os impactos das secas prolongadas, o Pantanal preserva mais de 99% de sua superfície hídrica em ambientes naturais. Já o Cerrado apresenta uma dinâmica fortemente influenciada pela ação humana, com grande parte de seus recursos hídricos associada a reservatórios e empreendimentos hidrelétricos.
Brasil tem recuperação pontual, mas tendência segue de queda
A nível nacional, o Brasil registrou 18,2 milhões de hectares de superfície de água em 2025, alta de 5,3% em relação a 2024. Apesar da recuperação, o volume permanece abaixo da média histórica de 18,5 milhões de hectares.
A análise por décadas mostra uma tendência contínua de redução da disponibilidade hídrica no país:
- 1985 a 1994: média de 19,86 milhões de hectares;
- 1995 a 2004: média de 18,71 milhões de hectares;
- 2005 a 2014: média de 18,16 milhões de hectares;
- 2015 a 2024: média de 17,28 milhões de hectares.
Entre a primeira e a última década analisadas, a superfície média de água no Brasil diminuiu 2,6 milhões de hectares. Para o coordenador técnico do MapBiomas Água, Juliano Schirmbeck, mesmo com sinais pontuais de recuperação, a situação ainda gera preocupação a longo prazo.
“Ao longo das últimas quatro décadas, observa-se uma tendência de redução da superfície de água no Brasil. Como se trata de um parâmetro naturalmente dinâmico, não podemos olhar apenas para o dado de 2025 de forma isolada”, destaca.
Corpos hídricos naturais perdem espaço
O levantamento também mostra mudanças na composição dos corpos hídricos brasileiros. Atualmente, 76,7% da superfície de água mapeada é formada por corpos hídricos naturais, enquanto 23,3% correspondem a áreas antrópicas, como reservatórios e hidrelétricas.
Desde 1985, os corpos hídricos artificiais ganharam 1,7 milhão de hectares, crescimento de 69%. Em sentido oposto, os corpos hídricos naturais perderam 3,2 milhões de hectares, o equivalente a uma redução de 19%.
Participe do nosso canal no WhatsApp
Clique no botão abaixo para se juntar ao nosso novo canal do WhatsApp e ficar por dentro das últimas notícias.
ParticiparLeia Também
CHUVARADA
Chuvas superam média histórica em Campo Grande e Três Lagoas, mas distribuição é irregular em MS
TECNOLOGIA
Escola estadual de Corumbá se consolida como polo de ciência e tecnologia no Pantanal
CONCLUSÃO DE CURSO
TCC desenvolvido em centro de pesquisa da UEMS é premiado pelo Crea ao apresentar solução ambiental
SEGURANÇA PUBLICA
Mato Grosso do Sul registra queda nos principais indicadores criminais entre janeiro e maio
COETRAES
Combate ao trabalho escravo e promoção do trabalho digno unem estados em encontro regional
Mais Lidas
CULTURAMA - HISTORIAProfessor de história e escritor visita Culturama e descobre adesivo histórico
COPA DO MUNDO 2026Seleção brasileira é convocada para a copa do mundo 2026
HOMENAGENS PÓSTUMASCâmara municipal de Fátima do Sul presta homenagens póstumas ao saudoso professor Joílson
HISTORIA DE FÁTIMA DO SULEscritor Wagner Cordeiro encontra em Vila Rica relatos sobre indígenas na história de Fátima do Sul
VICENTINA 39 ANOS - POR ANTÔNIO NERES

