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CRISE

Escolas particulares da Capital podem demitir 5 mil profissionais

Avanço da pandemia em Campo Grande pode inviabilizar retorno das atividades; donos de escolas falam em catástrofe

10 Jul 2020 - 10h15Por Correio do Estado

A crise gerada pela pandemia de Covid-19 pode levar as escolas particulares de Campo Grande a terem de demitir até cinco mil funcionários. Sem atividades presenciais desde o dia 23 de março por causa de decreto estadual, o setor espera conseguir reabrir em agosto para tentar conter os danos.

Segundo o presidente da Associação de Instituições de Ensino Particular de Campo Grande, Lúcio Rodrigues Neto, essas demissões já começaram e, até agora, três escolas encerraram definitivamente suas atividades por terem perdido muitos alunos.

A pior situação se encontra na Educação Infantil, em que não é obrigatório que as crianças estejam matriculadas em uma escola. A entidade estima que pelo menos dois mil alunos desse grupo tenham deixado as escolas por conta da paralisação das atividades presenciais.

Rodrigues Neto conta que, na sua escola, apenas duas crianças seguem matriculadas no Maternal 1, que abriga crianças de 1 a 2 anos. Uma é sua filha, e a segunda é de uma funcionária da escola, que tem bolsa integral. Mesmo assim, a funcionária responsável pela turma continua na instituição.

“A permanência desse fechamento pode criar um colapso no sistema educacional e na sociedade, porque muitos professores podem ser demitidos e, dependendo, alguns deles podem vir a passar por necessidades por dificuldade em encontrar empregos. Estimo que de três a cinco mil profissionais podem ser demitidos em curto espaço de tempo”, declarou o presidente da Associação.

INCOERÊNCIA

O setor tinha expectativa de voltar ao funcionamento neste mês, entretanto, por conta da aceleração no número de contaminações na Capital, a administração do município decidiu estender até o dia 31 de julho o decreto de volta às aulas das redes pública e privada, mesma determinação do governo do Estado.

Para o presidente da Associação, entretanto, a medida não tem sido justa com o setor da educação porque, segundo ele, outros lugares onde existem riscos até maiores de contágio permanecem abertos. 

“As escolas não contribuíram com a pandemia. Esse aumento de casos não está relacionado com as instituições de ensino. Então, porque só elas permanecem fechadas e temos escolas de inglês abertas, escolas de reforço abertas, cursos preparatórios abertos? O problema é a incoerência das aberturas aqui no nosso Estado. Tivemos abertura dos bares há muito tempo. Academias e igrejas estão abertas aqui”.

APRENDIZAGEM

Proprietário de uma escola na Capital, Rodrigues Neto cita pesquisas feitas em outros países para embasar sua tese. “As sociedades francesa e dos Estados Unidos de pediatria já publicaram pesquisas que mostram que as crianças têm menor propensão para terem o vírus e para evoluírem a casos mais graves, a não ser as que já têm alguma doença”.

Em publicação da Academia Americana de Pediatria (AAP), a entidade afirma que as crianças aprendem mais nas escolas do que fora delas e recomenda a volta, entretanto, com medidas de biossegurança estabelecidas. Em outra pesquisa, desta vez da Associação Médica do Texas, as escolas são categorizadas como risco moderado para o contágio por Covid-19.

“O maior problema para o setor aqui tem sido a falta de horizonte. Como vamos fazer um planejamento se não tem uma organização, se as escolas não conseguem nem dar férias para os servidores porque não sabem quando voltam. E se der férias e amanhã voltar?”, questiona Rodrigues.

CRÉDITO

A esperança do setor agora, para não ter ainda mais falências, é a de que o Programa de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) seja ampliado, para que elas possam solicitar financiamento. “Se não conseguirem, vão fechar e demitir, vai virar um caos. Praticamente todas as escolas estão em crise, daqui para frente, elas vão ter de fazer demissão, chegou no limite, não tem para onde correr”.

Ainda este mês, uma reunião entre o setor e a prefeitura deverá ocorrer para definir os rumos da reabertura. Para o médico infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda, neste momento não há base científica para a reabertura.

“Se continuarem aumentando o número de casos e a ocupação dos leitos, não têm condições de abrir. Isso iria contra, inclusive, o que a prefeitura tem feito, com toque de recolher mais cedo. Esse não é momento de voltar, e acredito que em agosto vai ser muito difícil que isso ocorra nessa situação que estamos, com apenas 21 dias até lá”, declarou o profissional.

O médico afirmou que concorda com a escala de periculosidade feita pela Associação Médica do Texas, mas, mesmo assim, não acha que seja o momento para pensar em aberturas. “Na minha opinião, temos de fechar o máximo de atividades e observar a curva – quando ela estiver descendo, aí sim, [as escolas] podem abrir de forma gradual”.

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