Um balde virou chuveiro e uma latinha de sardinha se transformou em ralador de queijo. É assim, improvisando, que os colegas caminhoneiros Ereni Luiz Rosset, 47 anos, e Flávio Carlos Dias Costa, 48, passam até 15 dias na estrada, longe da família.
Sentados no meio das duas carretas estacionadas, os dois caminhoneiros que trabalham na mesma empresa aguardavam na manhã desta segunda-feira no Posto Caravagio na BR-163, saída para São Paulo, em Campo Grande, a chegada do dia seguinte para fazerem a entrega do carregamento de frios.
Longe de casa há pelo menos 10 dias, os dois colegas se viram como podem para tentar minimizar a saudade e a falta dos mimos da família. Para economizar e ter uma alimentação melhor, os dois fazem a própria comida e levam de tudo no caminhão, desde calabresa e ovos, até chimarrão e café.
Com Uma torneira, o chuveiro está pronto (foto: Cleber Gellio)Mais calado, Ereni é solteiro e antes de ser caminhoneiro trabalhava com a família na lavoura em Palmitos (SC), onde mora até hoje. “Comecei a ganhar dinheiro depois que conheci a vida na estrada. No começo pensei em desistir porque não é fácil, mas com o tempo acostumei”, relata.
A comida é feita em um fogão improvisado e a alimentação armazenada dentro de um frigobar. Como não é possível ter de tudo no veículo, algumas coisas precisam ser inventadas como, por exemplo, o ralador de queijo que foi feito da lata de sardinha. “Nós fizemos vários furos pontudos na lata para poder ralar direito”, explica Ereni, o dono do ralador.
Outra “gambiarra” é o chuveiro. Flávio pegou um recipiente que já tinha sido transformado em balde, colocou uma torneira e na hora do banho o vasilhame é suspenso por uma corda amarrada no caminhão. “Dá para tomar banho numa boa”, diz Flávio orgulhoso, lembrando que em Mato Grosso do Sul faz muito calor.
Caminhoneiro há 19 anos, ele mora em Passo Fundo (RS), é casado, pai de três filhos e fala satisfeito que já é avô. Ele conta que chegou a ficar 40 dias fora de casa quando rodava pelos países do Mercosul.
Mas do outro lado do improviso, para ajudar existe a tecnologia. Hoje o caminhoneiro não desgruda de um notebook onde manda e-mail e fotos para a família quase que diariamente.
No caminhão há espaço para a pequena geladeira que guarda o indispensável. (foto: Cleber Gellio)“Foi ai que eu aprendi a me virar. Tudo que eu tenho hoje consegui rodando milhares de quilômetros dentro de uma carreta”, comenta, mostrando fotos da casa que conseguiu construir ao longo desses anos e da família reunida em dia de festa.
Entre as centenas de histórias que os colegas têm para contar, Flávio relembra do dia em que ajudou uma família que estava com o pneu furado no meio da estrada. “Parei e ajudei, também improvisando com as ferramentas que tinha no caminhão. Nessa vida a gente tem que saber dar um jeito pra tudo”, finaliza.
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Foto: Cleber Gellio