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Travesti sul-mato-grossense é escolhida 3ª mais bela do mundo

3 Nov 2009 - 14h18Por Mídia Max

A transexual Danielle Marques, de 28 anos, nascida em Bela Vista, Mato Grosso do Sul, espera que a conquista do terceiro lugar do concurso Miss Rainha Internacional, realizado na Tailândia, ajude a reforçar a luta pelos direitos dos travestis no Brasil.

No dia seguinte ao concurso vencido pela japonesa Haruna Ai, que fez cirurgia de mudança de sexo e conseguiu mudar seu nome de batismo no Japão, a candidata brasileira deu entrevista para mais de 19 emissoras de televisão e falou sobre as dificuldades de reconhecimento e respeito que enfrenta no Brasil.

Por telefone, a transexual sul-mato-grossense e registrada em cartório com o nome de Daniel Marques Corrêa revelou seu desejo de colocar o nome de mulher nos documentos e ajudar os transexuais a terem mais acesso ao trabalho. Casada há menos de um mês com um alemão de origem portuguesa, Danielle revelou o desejo de adotar uma criança para formar uma família. Confira a entrevista concedido ao G1:

Como você está se sentido após ser eleita a terceira transexual mais bela do mundo?

Danielle - Eu não tinha ideia da dimensão deste concurso aqui na Ásia. É uma superprodução com grande divulgação. Tinha jornalista do mundo inteiro. Só não tinha do Brasil. Sei que merecia mais que terceiro, mas a cultura asiática é muito diferente, eles respeitam muito a transexualidade. É muito diferente da nossa cultura. Mas fiquei contente com toda a divulgação obtida. No ramo artístico, você sempre tem que estar na mídia. Sempre busco algo para fazer para chamar a atenção. Agora tenho certeza de que meu trabalho vai dobrar. Estou muito feliz.

De que forma sua vitória pode ajudar na luta pelos direitos dos transexuais?

Danielle - O concurso foi uma oportunidade boa para mostrar a luta dos transexuais no Brasil. Somos pessoas normais, que pagam conta, batalham, trabalham e consomem como qualquer um. Estamos brigando para ter respeito e obter o direito de poder mudar de nome sem necessariamente ter de mudar de sexo, como acontece na Europa. É muito ruim você ter de apresentar uma documentação masculina quando vai pegar um avião, por exemplo. Espero que o Brasil possa abrir mais o mercado de trabalho aos transexuais. O país precisa pegar o travesti para trabalhar com decoração, maquiador ou cabeleireiro. Você não tem noção de quanto somos criativos. Temos instinto para fazer tudo na arte. E espero que daqui a uns 10 anos o Brasil possa estar mudado para o que os transexuais possam exercer profissões de formação acadêmica. Hoje é preciso ter muita força de vontade para não parar de estudar, porque nenhuma escola aceita um transexual.

Como foi sua trajetória até esse concurso?

Danielle - Trabalho desde os 15 anos. No Brasil, trabalhei como cabeleireira, modelo e consegui um emprego de maquiadora na TV Educativa de Campo Grande como travesti. Também atuei em um teatro de Balneário Camboriú (SC), onde também tinha um salão de beleza. Fui para a Argentina, onde aprendi a falar espanhol e em seguida parti para a Espanha. Em Barcelona, trabalhei na noite como gogo girl na beira da praia, ganha 50 euros por noite. Todo verão eu ia para Ibiza onde tinha muitas festas e dava para ganhar mais dinheiro trabalhando como dançarina. Foi lá que conheci o meu atual chefe, que é grego e vive na Alemanha. Ele me chamou para fazer parte de um grupo de transexuais que dançam com roupas sensuais ao estilo do Crazy Horse, a famosa companhia francesa. Era para trabalhar por 3 meses, mas já estou há quase 4 anos. Hoje sou estrela do espetáculo. Faço até um show solo, onde canto músicas de Gal Costa, Ivete Sangalo e Daniela Mercury. Neste concurso eu me apresentei cantando “O canto da cidade”, da Daniela Mercury. Sou muito afinada.

Você mudou muito o seu corpo?

Danielle – A minha primeira cirurgia plástica eu consegui fazer com o dinheiro que ganhei em Ibiza. Fiz plástica no nariz, coloquei prótese de silicone no peito e operei o “gogó”. Não fiz cirurgia de mudança de sexo.

Quando você descobriu a sua homossexualidade?

Danielle – Eu nasci em Mato Grosso do Sul, em Bela Vista, a cidade do Ney Matogrosso. Desde muito cedo percebi que era diferente. Não gostava de brincar com meninos, achava grosseiro brincar de carrinho e jogar futebol. E quando ia brincar com as meninas, e eram elas quem me discriminavam, me chamando de “mariquinha”. Quando fiz 14 anos entrei para uma igreja evangélica, onde cantava e participava de peças de teatro. Recebi uma proposta de gravar um disco, mas para isso precisava ser batizada. Fui à sede da igreja em São Paulo e nela estava acontecendo um seminário com o tema “Homossexualismo, a ciência do pecado”. Foi um choque.

Como você se sentiu?

Danielle – A igreja me dizia que eu estava pecando e que isso era uma doença. Eu ajoelhava, chorava, pedia a Deus para me libertar. Não queria ser uma pessoa doente. Pedi até para morrer. Até que comecei a conhecer outros gays e vi que eram pessoas saudáveis e felizes. Decidi deixar a igreja e me assumir transexual.

Como foi a reação em sua família?

Danielle - Aos 15 anos já vesti a primeira saia, coloquei brinco, foi um choque na família. Um tio meu ficou nervoso. A televisão sempre mostra o estereótipo do gay escandaloso, e ninguém quer ter um palhaço na família. Eu não tive pai, que fugiu antes de eu nascer e não me registrou no documento. Minha mãe ficou chocada. Minha avó me fez sair da escola. Mas com o tempo as coisas foram mudando. Mas, quando família vê que você não se prostitui e que se mantém com dignidade, é mais fácil ser aceito. Hoje sou o orgulho da minha mãe e de toda a minha família.

Como você conheceu seu marido?

Danielle – Quando fui para a Alemanha precisava de um professor que falasse português e alemão. Ele é filho de portugueses e nasceu em Stuttgart. Começamos a conversar pela internet. No começo ele não sabia que eu era transexual. Ele é hetero e nunca havia tido relação com uma “trans”. Mas logo nos apaixonamos e decidimos nos casar. Nosso casamento foi no último dia 19, em Hamburgo, onde moramos. Temos uma união civil com comunhão parcial de bens. Tenho direito ao plano de saúde, seguro de vida e outros benefícios que ele tem. Agora quero mudar o nome que consta em meus documentos. É muito chato ser constantemente alvo de brincadeiras dos oficiais de imigração sempre que passo em aeroportos. Depois quero fazer a cirurgia de mudança de sexo.

Existem relatos de transexuais que fizeram a cirurgia de mudança de sexo e depois tiveram problemas psicológicos. Isso te preocupa?

Danielle – O que eu mais tenho medo é das dores da cirurgia. Também tenho medo de morrer na mesa de operação. Eu conheço amigas que operaram e não mudaram em nada, mas também sei de gente que operou e deu uma pirada geral. Mexe muito com o psicológico da pessoa. Mas eu quero muito adotar uma criança e acho que o mundo pode estar preparado para um filho ter dois pais ou duas mães, mas é difícil aceitar um pai e uma mãe que tenha órgão genital masculino.

Christopher Archambault/AFP
Transexual Danielle nasceu em Bela Vista, na fronteira com o Paraguai

Muitas vezes a vida de um transexual está ligada à prostituição. Você já fez programa?

Danielle – Nunca fiz programa na minha vida. Sim, eu já tive homens que me bancaram, alguns eram até casados, mas nunca fiquei com alguém que eu não gostasse ou que tivesse de aturar só por causa do dinheiro. Não consigo imaginar vender o corpo ou ter que fazer sexo sem ter prazer. Acredito no amor e na convivência. Nunca me prostitui na rua e conheço muita “trans” que nunca se prostituiu. Não discrimino quem faz isso. Sei que a vida de uma transexual não é fácil. É briga diária contra a natureza, porque o corpo fabrica hormônio masculino

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