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Tartaruga que viveu 30 anos sem o mar atravessou o Atlântico

29 Out 2010 - 10h38Por Ecosfera

A Calantha esteve mais de 30 anos sem o mar, num tanque do Aquário Vasco da Gama, em Lisboa. Desde que foi devolvida ao oceano, no ano passado, esta tartaruga nadou 10.600 quilómetros, em linha reta, e conseguiu atravessar o Atlântico, numa das maiores migrações conhecidas.

A Calantha, fêmea da espécie tartaruga-comum (Caretta caretta), chegou a 30 de Agosto às praias das ilhas britânicas Turcos e Caicos, nas Caraíbas. Foi uma viagem que durou 332 dias, num mar que não via há mais de 30 anos.

“Sabemos que está saudável, que foi capaz de se defender [durante a travessia do oceano] e que soube reencontrar o seu rumo. Não se perdeu no meio do mar”, contou ao PÚBLICO Élio Vicente, biólogo marinho e director de Ciência e Educação do Zoomarine.

Hoje está nas Caraíbas, numa zona que serve de alimentação, reprodução e postura para muitas tartarugas de espécies diferentes.

Mas para que esta viagem fosse possível, a Calantha passou por cerca de cinco anos de recuperação, no Porto d’Abrigo, Centro de Reabilitação de Espécies Marinhas do Zoomarine. Para esquecer os mais de 30 anos que viveu numa piscina pequena, rodeada de pessoas todos os dias. Quando chegou ao centro de reabilitação, a 13 de Outubro de 2005, a tartaruga pesava 115 quilos.

“Primeiro ensinámos-lhes que os humanos não são amigos”, enumerou o biólogo marinho. Depois, a Calantha reaprendeu a capturar o seu alimento, especialmente caranguejos e peixes. “Como tinha perdido as técnicas de captura de presas, ensinámos-lhe a identificar o alimento e a ir buscá-lo”. Por fim, “foi essencial pô-la a nadar e a mergulhar o mais possível, para exercitar a sua musculatura”.

A 30 de Setembro do ano passado, o Zoomarine, o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) e a Marinha Portuguesa devolveram a Calantha ao mar. Pesava, então, 128,5 quilos.

Desde então tem sido seguida atentamente, graças aos dados de satélite disponibilizados por um transmissor colocado com uma resina especial na sua carapaça.

“Não sabíamos para onde iria. Podia ir até à Florida, Brasil ou África, por exemplo. Esta é a primeira vez que uma tartaruga que viveu tanto tempo em cativeiro voltou ao mar”, contou. Ainda assim, “esta é uma das maiores migrações [de tartarugas] de que temos conhecimento”.

Para Élio Vicente, seria um prémio que a “nossa Calantha fosse vista numa praia a fazer um ninho”. Esta tartaruga está em plena fase de reprodutiva. Não se sabe ao certo a sua idade mas, segundo os primeiros registos no Aquário Vasco da Gama, datando de 1974, terá pelo menos 40 anos. As tartarugas têm uma longevidade média de 60 a 70 anos.

O biólogo garante que não se coloca a questão de a Calantha ser, ou não, rejeitada pelas outras tartarugas. “Durante a maior parte do ano, à excepção da altura da reprodução, as tartarugas não interagem, não há laços sociais. Apenas partilham o espaço”.

Agora, a questão em aberto é se a viagem da Calantha chegou ao fim ou se esta é apenas uma etapa, para repor as energias gastas durante a longa viagem. “Ela pode ainda seguir para o Mar das Caraíbas, para as Bahamas, Brasil ou Golfo do México”. Dentro de, mais ou menos, uma semana, a Calantha dará a saber a sua decisão.

A espécie Caretta caretta tem uma vasta distribuição em todos os oceanos mas está classificada como Em Perigo, no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, especialmente por causa das ameaças às praias de nidificação, como a captura de ovos e a urbanização intensiva. Nas águas portuguesas ocorrem maioritariamente juvenis e a maior ameaça é a captura acidental por artes de pesca.

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