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MS tenta ganhar poder de barganha na safra de grãos

4 Nov 2010 - 07h00Por Agrolink
Com o plantio em dia e a produção a depender do clima, Mato Grosso do Sul se concentra na venda da safra. Os produtores comercializaram antecipadamente até 30% da soja, mais do que na temporada passada. Porém, dizem que não há segurança para ir além desse patamar, por falta de estrutura para garantir renda sob medida.
 
O quadro reflete a confiança de que a soja valerá cerca de US$ 12 por bushel (27,2 quilos) na colheita em razão da forte demanda. Por outro lado, mostra que ainda falta acesso aos mecanismos de atuação no mercado futuro.
 
“Em cada dez produtores, dois possuem registro para negociar em bolsas de commodities”, avalia o agrônomo Leonardo Carlotto, analista da Federação da Agricultura do estado, a Famasul. Sem armazéns suficientes, o produtor entrega a safra a cerealistas e cooperativas para vender quando considerar que os preços não vão subir mais ou quando as contas forem vencendo.

Na avaliação da Famasul, o estado manteve o cultivo de 1,7 milhão de hectares de soja e 60 mil hectares de milho neste verão. Admite-se queda de 2% na produtividade por força do La Niña. A estação deve render 5,5 milhões de toneladas de grãos. O plantio chega a 70% no Sul e se aproxima de 50% no Norte do estado, ainda dentro da melhor época da janela agroclimática.

Para o produtor Nelson Anto­­nini, vender na colheita não é falta de opção, mas uma estratégia. “Como a soja fica disponível, a cooperativa consegue preço melhor”, considera.
 
Quem pode entregar o grão na hora recebe de R$ 2 a R$ 5 a mais por saca em Mato Grosso do Sul. Antonini destina a safra à Co­­pa­­sul, de Naviraí, que vem lotando seus armazéns, com capacidade estática para 210 mil toneladas, no verão e no inverno.
 
Apesar de os custos terem caído até 10% neste ano, o preço do arrendamento segue em alta e tende a anular parte dos ganhos, analisa o produtor Luciano Muzzi. “A rentabilidade é muito baixa se comparada a outras possibilidades de investimento.
 
Só vale a pena se for considerada a valorização da terra”, argumenta. “Não vendi nada até agora, mas o preço acima de R$ 40 (por saca de soja) me parece bom”, relata Muzzi, que pretende antecipar a venda de um terço da produção antes da colheita.
 
Na esperança e ganhar um pouco mais, o produtor adia vendas, mas assume o risco de perder renda, observa o agrônomo Marco de Oliveira, da Organização das Coope­­rativas Brasileiras , que acompanhou a Expedição Safra na última semana. Essa postura estaria relacionada ao fato de boa parte dos agricultores estar descapitalizada, diz Rudimar Borgelt, presidente do Sindicato Rural de Chapa­­dão do Sul (Norte).
 
“Os preços poderiam ser melhores”, defende. A região, que tem fazendas de até 40 mil hectares, possui terminal para embarque ferroviário, mas segundo os produtores as cotações são as mesmas de áreas que usam apenas transporte rodoviário. “Deveria baratear custos e garantir preço melhor ao produtor, mas isso não acontece”, reclama Borgelt.

Depois de ter acertado os ponteiros no campo – com produtividade estabilizada na casa de 3,4 mil quilos de soja e 4,8 mil quilos de milho (safrinha) por hectare e aproveitamento da área para engorda de gado –, Roberto de Oliveira, de Maracaju, tenta “fazer preço mé­­dio” antecipando parte das vendas. “Comprometi 12% na troca por insumos e 28% no mercado futuro.” Mesmo que os preços subam, a rentabilidade de parte da produção está garantida, observa.

Imposto corrói renda, diz OCB

Para cada tonelada exportada, a cadeia da soja precisa comercializar outra tonelada no mercado interno em Mato Grosso do Sul. A exigência imposta em 2005 pelo governo do estado (Decreto 11.803) para garantir arrecadação de ICMS tira competitividade do setor e adia os planos de agroindustrialização, critica a superintentende da unidade estadual da OCB-MS (Organização das Cooperativas Brasileiras), Dalva Caramalac. “Para elevar a renda do produtor, é preciso desenvolver a cadeia da soja, ampliar a demanda. Estamos buscando incentivos à implantação de indústrias no estado”, afirma.

A questão foi parar na Justiça, mas o STJ (Superior Tribunal de Justiça) considerou que a imposição do governo sul-mato-grossense está dentro da lei, apesar de anular parcialmente os efeitos da Lei Kandir, que desonera as exportações.
 
O governo estadual alega que o setor reclama porque vinha simulando exportação para não pagar ICMS e argumenta que o imposto não é cobrado sobre o valor pago ao produtor, mas a partir de um preço de referência estabelecido aos exportadores.
 
“A questão é que o estado depende do imposto cobrado sobre a soja para se manter e não quer abrir mão dessa fonte de renda”, afirma Dalva. Em sua avaliação, é preciso compensar essa desvantagem.

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