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Leia o artigo "Um Conto de Natal" de Reinaldo Rodrigues

26 Nov 2004 - 18h08

UM CONTO DE NATAL

 

*Reinaldo Rodrigues

 

Lá estava a mesa arredondada, decorada a caráter, isto é, saltavam aos olhos as tradicionais cores natalinas, o vermelho, o verde e o dourado, nas guirlandas, na toalha de mesa, nos enfeites natalinos de cor brilhante e chamativa e até mesmo nos guardanapos de linho, dobrados da maneira tradicional, os talheres dourados refletiam a luz mortiça do ambiente, além de ricos castiçais com velas compridas, torneadas, vermelhas e brancas.

Sobre a riquíssima mesa sobressaiam os assados, os embutidos, as frutas, as castanhas, os doces, os panetones, as passas e as frutas, que davam um pouco de tropicalidade aos alimentos ali oferecidos.

Em uma mesa menor, ricamente decorada estavam os vinhos, as champanhes, copos e taças de variadas formas e tamanhos e do mais puro e transparente cristal trabalhado, os refrigerantes acondicionados em belas jarras, tudo enchia os olhos dos presentes.

Acercaram-se das mesas primeiro a criançada, meninas, meninos de idades variadas, depois jovens e adultos, todos com os cabelos mal alinhados, rostos, pés e mãos descuidados e encardidos, vestiam roupas velhas, gastas e que a muito não viam água e sabão.

Todos se afastaram um pouco quando o pai e a mãe se aproximaram daquela fartura toda, olhos fundos, faces encovadas e maceradas pela fome que a muito lhes castigavam o corpo e o espírito.

Pensava ele, o pai : aquele era um dia diferente, tinha a família toda saído cedinho para a cidade, pois era dia de Natal e aqueles que tem muito normalmente tem o coração abrandado e estão sempre mais dispostos a dar uma ínfima parte daquilo que está sobrando em casa, é pois dia de pedir e receber dos privilegiados da sociedade.

Perambularam pela cidade toda, e onde pediram só ouviram nãos e as tradicionais desculpas, tais como : passa mais tarde! a  patroa não está! minha mãe saiu!

No comércio, eram enxotados pelos seguranças, com os costumeiros : vamos, vamos, saiam logo daqui! Ou até mesmo com pequenos safanões.

A tarde vinha chegando, então o pai chamou os filhos e mulher e lhes disse :  logo escurecerá, vamos embora e na volta vamos tentar arrumar alguma coisa.

Ele voltando ao presente e sem entender, pensou: quem seria a pessoa ou as pessoas que trouxeram para seu casebre, todas aquelas coisas, só havia visto aquilo em velhas revistas catadas no lixo dos bairros luxuosos, nada havia conseguido durante o dia todo em que mendigara pela cidade, matutou ele. Afastou-se um pouco para o lado e chamou a  esposa e os filhos, que ainda boquiabertos, fitavam embevecidos toda aquela riqueza, dizendo-lhes : “Deus lembrô de nóis! Deus lembrô de nóis! Vamu comê! Vamu! Vamu!”    

“Então, o pai percebeu que embora estivessem todos se movimentando, ninguém conseguia tocar os alimentos,” em seguida sentiu alguém tocar-lhe fortemente o ombro e ouviu, primeiro ao longe, mas logo em seguida nitidamente : “Zé! Zé! Acorda Zé! Tá sonhano cum quê, ôme? Vamu logo pro lichão. Osorubú já tão lá. As criança tem que cumê. Hoje é dia de Natá. Vamu Zé! Alevanta ôme.”

 

 

Reinaldo Rodrigues de Almeida

Advogado na cidade de Fátima do Sul.

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