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Brasil pode produzir cana mais limpa e economizar US$ 100 mi

16 Mar 2010 - 13h00Por Portal Brasil
O Brasil pode economizar até 70% do adubo nitrogenado que a cana de açúcar precisa para produzir, o que representa cerca de US$ 100 milhões por ano.

Pesquisas lideradas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre o mapeamento do genoma de uma bactéria (a Gluconacetobacter diazotrophicus) mostram que ela é capaz de transferir o nitrogênio do ar para o vegetal.

Agora, o pesquisador Paulo Ferreira, professor do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) e coordenador do projeto, quer avançar nas pesquisas e aplicar os resultados na produção agrícola, o que já é possível com resultados positivos confirmados em testes da de agrobiologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A G. diazotrophicus foi descrita pela primeira vez nos anos 80. Ela foi encontrada na cana-de-açúcar por Joana Dobëreiner, pesquisadora de agrobiologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A ênfase do trabalho da cientista foi procurar e selecionar bactérias capazes de transferir o nitrogênio do ar para o vegetal. A partir da sua constatação, vários grupos de pesquisa passaram a estudar a relação entre a bactéria e a planta.

Vantagem ambiental
O nitrogênio é o principal adubo usado na agricultura e esse uso envolve custos elevados, pois há dificuldades para extraí-lo da atmosfera. A amônia é a base para a elaboração de fertilizantes nitrogenados, já que tem o elemento na composição química. “A bactéria dentro da planta elimina o intermediário do solo.

Ela transfere para o vegetal o nitrogênio fixado. E a planta, isso não se conhece tão bem, provavelmente, transfere uma forma de energia para a bactéria, ou seja, uma troca” avalia o professor da UFRJ. 

Ferreira descreve as vantagens ambientais com a metodologia. De acordo com ele, o nitrato presente no adubo é transformado em uréia, que é tóxica. A substituição pela ação dos microorganismos pode evitar agressões ao meio ambiente.

“Quando o adubo é colocado no solo, apenas uma pequena parte é aproveitada pela planta. O restante é levado pela chuva e pode afetar toda a cadeia marinha, desde as algas aos peixes”, argumenta.

Outras bactérias ainda podem transformar os fertilizantes nitrogenados em gases que contribuem para o aquecimento global.

As avaliações demonstraram também que a bactéria G. diazotrophicus tem capacidade sanitária. “Ela cresce dentro da planta e combate outras bactérias patogênicas”, esclarece.

Ferreira também é bolsista em produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT).

Ele diz que a finalidade de mapear o genoma da bactéria é possibilitar o conhecimento, mas o objetivo final é a aplicação na produção agrícola. Isso já é possível de ser feito com resultados positivos confirmados em testes da Embrapa.

A expectativa agora é de avançar nas pesquisas. “O atual estágio em que estamos é para entender o relacionamento com a planta, mas no futuro será possível modificar essa bactéria e ser mais eficiente no combate a outros micróbios, na fixação do nitrogênio e no crescimento”, prevê o pesquisador. 

Ele lembra que no Brasil, toda a soja é plantada sem adição de adubo de nitrogênio no solo. A implantação foi feita por meio de uma bactéria diferente a partir de pesquisas também desenvolvidas na Embrapa Agriobiologia e aperfeiçoadas na Embrapa Soja no Paraná.

No caso da cana, as avaliações indicaram que a metodologia tem potencial de fornecer até 70% do adubo nitrogenado que a planta precisa.

Ferreira destaca ainda as vantagens econômicas e competitivas da medida para o Brasil. "Só a economia com cana-de-açúcar está na faixa de US$ 100 milhões por ano.

O objetivo é chegar a um momento em que se possa pegar a cana e outras plantas próximas, como milho ou arroz, e se substituir o máximo de adubo químico nitrogenado pelo cultivo com essas bactérias", afirma.

O artigo de publicação da pesquisa, lançado no primeiro semestre de 2009, ganhou notoriedade na conceituada revista científica inglesa BMC Genomics.

O trabalho foi realizado por meio de uma grande integração científica; com envolvimento de mais de 50 autores, sete instituições de pesquisa, técnicos e estudantes secundários.

A pesquisa é financiada pelo CNPq. A agência investiu R$ 1,4 milhão por meio do Projeto Genoma. Os estudos contaram ainda com recursos, na ordem de R$ 4 milhões, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).


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