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Bicheiro fazia apostas dentro da Assembleia Legislativa do MS

14 Dez 2009 - 10h35Por Fantástico

Com uma câmera escondida, o Fantástico entrou na sede do jogo do bicho de Mato Grosso do Sul. Cerca de 30 pessoas estão no local. Umas acompanham tudo, com atenção. Outras aguardam o resultado jogando sinuca. No canto, fica o cofre do grupo. Os sorteios ocorrem diariamente e o resultado vale para todo estado.

Durante duas semanas, o Fantástico investigou o jogo clandestino em vários pontos do país. Na cidade de São Paulo, por exemplo, foi constatado que as apostas acontecem livremente em bancas que funcionam sem identificação e também em comércios regularizados.

Em Sorocaba, o jogo do bicho é feito dentro de uma casa lotérica. Em muitas bancas do jogo do bicho, o bloco de papel foi substituído pelo computador.

”Historicamente, é visto como uma infração inofensiva, quando, na verdade, é exatamente o contrário. Por trás do jogo do bicho, vem muita e muita infração penal séria”, denuncia o promotor de Justiça Wellington Santos Veloso.

O Fantástico foi a um prédio público, onde se discutem leis que afetam mais de dois milhões de cidadãos: a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.

A equipe do Fantástico procura por um homem apontado como o bicheiro da Assembleia. O nome dele é Gumercindo e o apelido é Gugu. Ao encontrá-lo no gabinete de um deputado, o produtor do Fantástico deixa claro que quer fazer um jogo. Ele o leva a uma pequena sala dentro da Assembleia, onde fica o escritório do jogo do bicho. O bicheiro fala tranquilamente sobre o que faz no local – que trabalha na segurança, mas faz jogo de manhã e à tarde.

Segundo a assessoria de imprensa da Assembleia, o bicheiro não é funcionário da casa. Quando soube que estava sendo gravado, ele passou a negar tudo. Repare no vídeo que o bicheiro usa um crachá de visitante, com o nome do presidente da Assembleia.

”Para mim, isso é desconhecido. Banca de jogo de bicho aqui na Assembleia Legislativa? Além de ser um absurdo, e eu não ter conhecimento disso, eu vou solicitar a nossa segurança da Assembleia Legislativa. A presidência vai tomar medidas em relação a isso”, afirma o presidente da Assembléia Jerson Domingos.

Em uma casa de um bairro tradicional de Campo Grande, todos os dias são sorteados os números do jogo do bicho do estado do Mato Grosso do Sul. O local não tem nenhum tipo de identificação. A única coisa que chama a atenção é o entra e sai de motoqueiros. São eles que levam o dinheiro das apostas e divulgam o resultado do sorteio, que acontece duas vezes ao dia. Em menos de quatro minutos, saem os números do quinto ao primeiro prêmio.

O sorteio é semelhante em todo o Brasil. Para se chegar ao número premiado, é preciso inverter a ordem das bolinhas sorteadas. E para saber qual o bicho ganhador, valem os dois números finais. No caso, o 30 é camelo. Um grupo se encarrega de carimbar os resultados. Na sequência, os motoqueiros levam os papéis com resultados às bancas do jogo ilegal.

No dia seguinte, o Fantástico volta ao local. Depois da saída da equipe, um homem vai embora com um malote e os motoqueiros deixam o local.

Quem promove o jogo do bicho dificilmente vai parar na cadeia. O máximo que pode acontecer, segundo a polícia e o Ministério Publico, é o pagamento de algumas cestas básicas. Mas em Sorocaba, interior paulista, uma investigação teve um resultado diferente.

Em agosto, sete pessoas foram presas, acusadas de envolvimento com o jogo do bicho. E também com lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

”Tudo isso contando com a conivência e a corrupção de agentes públicos e a proximidade de agentes políticos. Essas pessoas agiam de forma verdadeiramente empresarial. Era uma sociedade empresarial criminosa”, descreve o promotor de Justiça.

”O jogo migrou não só para o caça-níquel, mas também para cassinos clandestinos. Por trás do jogo, existe uma quadrilha e existe um crime organizado”, explica o delegado Wilson Negrão.

A investigação apontou que o bicheiro Nitamar Bernardino da Silva chefiava o esquema em várias cidades de São Paulo. Ele é um homem violento. Em uma conversa grampeada, ele revela que anda sempre armado. “Eu não tenho medo de entrar em cana não. O máximo que pode acontecer é uma matança”, diz o sujeito.

O bicheiro, de 59 anos, está foragido. Ele chegava a estudar cenas do filme “O Poderoso Chefão” para copiar o estilo mafioso.

Nitamar da Silva se diz um bicheiro das antigas: gosta de usar objetos de ouro. Em um dos telefonemas, ele encomenda uma jóia parecida com a mostrada em vídeo. Mesmo procurado pela polícia, Nitamar continua agindo. O Fantástico flagrou pessoas ligadas a ele fazendo apostas do jogo do bicho.

De acordo com a investigação, Nitamar da Silva movimenta quase R$ 1 milhão por mês. Se ele for preso e condenado, pode ficar seis nos na cadeia.

“O jogo do bicho, há muito tempo, deveria ser tratado com mais rigor pela nossa legislação”, defende o promotor de Justiça.

”Aquele que pratica o jogo do bicho acaba por contribuir com diversas outras atividades criminosas que trazem um grande prejuízo pra sociedade. Tolerância social ao jogo serve como combustível para que o jogo ainda sobreviva depois de tanto tempo”, explica o delegado de policia federal do Rio de Janeiro Paulo Cassiano Júnior.

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