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NEGLIGÊNCIA FUNCIONAL

'Peguei meu filho e achei que estivesse morto', diz mãe de criança dopada em creche

Era a quarta vez que o menino passava pelo mesmo problema. Depois de mudar o filho de creche, o menino não sofreu mais os sintomas.

24 Mai 2019 - 10h43Por Extra

Mesmo após passar quatro dias no hospital acompanhando o filho internado, em maio de 2017, Natália (nome fictício) não conseguiu descobrir o que tinha deixado a criança de apenas seis meses tão mal. Os exames de ultrassom, ecocardiograma e tomografia foram insuficientes para explicar os sintomas de Rafael (nome fictício), como vômitos e desmaios repentinos. Por fim, ela ouviu do médico: "Alguma coisa aconteceu na escola e não te contaram".

Natália voltou ao Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) Valter Peresi, em Votuporanga (SP), a creche onde Rafael estava matriculado, mas nenhum dos funcionários soube explicar o que havia ocorrido. Era a quarta vez que o menino passava pelo mesmo problema. Depois de mudar o filho de creche, o menino não sofreu mais os sintomas.

Assim como o filho de Natália, outras crianças vinham sofrendo o mesmo problema na creche de Votuporanga. Só descobriu-se o que realmente estava acontecendo ali em novembro do ano passado, quando saiu o resultado do exame feito em outra criança. Após ver o filho passando mal, Keli Antoniolo resolveu investigar mais a fundo. E descobriu: o filho dela - um bebê de meses - estava sendo medicado com clonazepan, comercializado pelo nome de Rivotril. Análises laboratoriais identificaram presença da droga no sangue e na urina da criança. O clonazepam é utilizado para inibir crises convulsivas, transtornos de ansiedade e de humor, síndromes psicóticas e outros tipos de tratamento, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A partir daí, outras mães pediram exames em seus filhos.

— Em um mês aconteceu duas vezes com o meu bebê. Peguei meu filho desmaiado na creche, levei para casa, ele não respondeu, então nós corremos para a Santa Casa. Ele continuava sem reação. Achei que ele estivesse morto — diz Fernanda Silva Oliveira, de 33 anos, mãe de Nicolas, que também passou mal na mesma escola.

Nicolas, de apenas seis meses, ficou dois dias na semi-UTI. Fernanda afirma que não pensou em levá-lo para fazer o exame toxicológico porque não imaginou que algum funcionário da creche pudesse dopar seu filho para fazê-lo dormir.

— Isso é um absurdo que poderia ter acabado com a vida de uma dessas crianças. Nós iremos acompanhar o caso até o final para garantir que ninguém saia impune dessa história e para que a justiça seja feita de forma que alivie a angústia dessas mães — declara Bruna Nunes Carvalho, advogada responsável pelo caso.

Ao menos seis crianças apresentaram sintomas

Além de Fernanda, Keli e Natália, ela atende outros seis pais cujos filhos apresentaram os mesmos sintomas na creche Valter Peresi.

O exame toxicológico foi feito apenas no filho de Keli. Mas como todos os sintomas são idênticos, segundo a advogada, entende-se que todas elas ingeriram a mesma substância. Os primeiros relatos são de 2016, e somente com o boletim de ocorrência, no fim do ano passado, é que as famílias tomaram conhecimento dos outros casos e decidiram se juntar.

A Prefeitura de Votuporanga abriu uma sindicância para apurar o ocorrido. Segundo portaria publicada no Diário Oficial da cidade, "a medida é necessária por considerar a gravidade das denúncias e a necessidade de apuração de possível cometimento de falta funcional por servidores públicos". A Prefeitura informa que os profissionais da educação sabem que nenhum medicamento deve ser administrado nas escolas municipais sem consentimento dos pais.

— A Prefeitura abriu sindicância, só que a pessoa continua trabalhando e exercendo o mesmo cargo, cuidando das mesmas crianças — diz Fernanda. Agora, ela e outros pais vão acompanhar o inquérito policial.

A prefeitura de Votuponga e a creche Valter Peresi ainda não se manifestaram.

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