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Fátima do Sul, 19 de Novembro de 2017
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8 de Julho de 2017 10h38

Alunos da UFMS relatam rotina de depressão, ansiedade e remédios controlados

Muitos não quiseram falar e muito menos aparecer, por medo de represálias.

Campo Grande News
Mayara relata que os alunos de Enfermagem fizeram dinâmica para desabafar sobre problemas mentais que desenvolveram.Mayara relata que os alunos de Enfermagem fizeram dinâmica para desabafar sobre problemas mentais que desenvolveram.

Nos últimos dias, relatos de estudantes da UFMS chamaram atenção nas redes sociais pelos relatos de ansiedade, depressão e abusos. Então, vem a pergunta à cabeça: A vida que é dura, ou o camarada que é mole? Pelo que os alunos dizem, a coisa é feia.

 

Muitos não quiseram falar e muito menos aparecer, por medo de represálias. Alguns toparam conversar e compartilharam relatos que envolvem depressão, internações em clínicas psiquiátricas, desistência e até um Acidente Cerebral Vascular (AVC).

Claro que não é possível estabelecer a rotina de estudos como causa de todas as doenças e problemas emocionais. Afinal, cada caso tem suas peculiaridades e cabe a um médico definir suas causas e origens. Mas os estudantes alegam que a pressão e o estresse podem ter funcionado como "gatilhos", que desencadearam as complicações. A Pró-Reitora de Assuntos Estudantis da UFMS, Ana Rita Barbieri Filgueiras, também admite a possibilidade. "A universidade não é uma ilha, não é um espaço totalmente protegido. Ou seja, nós temos uma relação intensa com a sociedade. Os alunos podem chegar aqui com quadro de depressão, ou a universidade pode ter alguns gatilhos que disparam [a doença]", pontua. 

O acadêmico de Arquitetura Glauco Barbosa Moreira, de 24 anos, relata que é um dos "menos ferrados" em seu curso, pois desenvolveu "apenas" uma gastrite nervosa. "Tive que desistir de várias matérias. Passei por psicologo e psiquiatra que diagnosticaram o estresse como causa da gastrite", diz. "São muitos projetos e trabalhos pedidos ao mesmo tempo, o nível de detalhamento exigido é muito alto. E o critério de avaliação por vezes é muito subjetivo".

 

Foi uma colega de trabalho de Glauco, Mayara Jusviak, de 21 anos, quem sofreu o AVC. "Naquela semana, todos nós estávamos dormindo a semana toda na casa do Glauco, pra terminar o projeto. Estávamos à base de cápsulas de cafeínas, dormindo pouco, virando madrugadas", conta a estudante. "Foi quando terminamos, eu estava me arrumando pra ir pra faculdade, e desmaiei. Acordei no hospital, e a primeira coisa que fiz foi pedir pra avisar que eu não poderia apresentar o trabalho".

Os médicos de Mayara explicaram que um fator genético deve ter sido determinante no que aconteceu, mas indicaram a rotina estressante e a pressão comopontos desencadeadores. Ela ainda faz fisioterapia para recuperar os movimentos da mão e toma remédios controlados para ansiedade, uma realidade que diz ser comum entre os estudantes.

Vale lembrar que a UFMS é conhecida pelas atléticas, grandes festas feitas pelos estudantes e a frequência dos mesmos nos bares que ficam nos arredores do campus. "No começo, era mais tranquilo. As coisas vão piorando a cada semestre", pontua Mayara, talvez explicando porque parte dos estudantes parece ter uma vida agitada e longe das complicações.

Apesar de Arquitetura estar no centro do debate, outros cursos também aparecem entre os desabafos. Andrey Felipe Corrêa, 24 anos, desistiu da graduação em Letras, faltando apenas um semestre, por não ter mais condições psicológicas de continuar estudando 22 matérias ao mesmo tempo, além dos estágios obrigatórios. "É um curso com muitas matérias, de 10 a 12 por semestre. Dessas, umas 5 pedem que você leia de 2 a 3 livros por semana. Ainda tem os fichamentos semanais, entrega de trabalhos que são como TCC's a cada semestre, e as provas. E a partir do quinto período tem os estágios, são dois por semestre que vão aumentando e se acumulando caso você não dê conta" explica.

Andrey, que convive com depressão, foi internado cinco vezes em clínicas psiquiátricas, e diz pelo menos três foram por conta da pressão sofrida no curso. "As pessoas no curso de Letras estão ficando transtornadas. O coordenador do curso chegou a ir em sala de aula, falar do alto índice de evasão, pedir para as pessoas não desistirem. Mas não tem como. Têm muitos desistindo. Uma veterana minha surtou, quebrou tudo na casa dela, e saiu também", revela.

Lado B também ouviu relatos parecidos de estudantes dos cursos de Enfermagem, Pedagogia e Medicina Veterinária. Na Enfermagem, a estudante Mayara Fredo conta que os alunos se reuniram para conversar e desabafar, falar sobre os problemas mentais que desenvolveram e buscar soluções.

Uma outra estudante, de Engenharia de Software, de 20 anos, relata que já tentou dialogar, mas as respostas são sempre as mesmas. "Uma vez fui falar com um professor sobre prazo do trabalho, e ele me respondeu: 'o que você faz da meia-noite às 6h da manhã? Você dorme?'", relata. "Pra eles, nós temos que passar a madrugada fazendo trabalho, e não dormir". Ela prefere não se identificar.

 

Casos de assédio também são frequentemente relatados, mas com maior receio e medo. A estudante de Pedagogia Agnes Cristine Dualibi Viana, 19 anos, atua no Centro Acadêmico do curso e relata professores de diversos cursos que humilham alunos e perseguem estudantes cotistas. "Além de outros abusos, como dar zero em um trabalho sem devolver pro aluno ver o que errou", diz.

E o problema não parece ser recente, já que a veterinária Mariana Mirault, 37 anos, que estudou na UFMS de 2000 a 2003, revela que presenciou e passou por casos de perseguição de professores contra alunos. "Antes das redes sociais era mais difícil os absurdos virem à tona", afirma.

Outro lado - Vários estudantes entrevistados fizeram questão de não generalizar os professores e corpo docente. "Minha crítica é ao sistema de ensino, não a professor nem a ninguém. Alguns professores foram bem prestativos e deram a mim e à minha família todo apoio", ressalta Andrey.

"Seria covardia generalizar. São alguns, sabe? Não são todos. A minha coordenadora de curso mesmo é uma pessoa maravilhosa, incrível. Ela faz o que pode para melhorar a situação", pontua a acadêmica de Engenharia.

A reportagem tentou contato com o Coordenador do Curso de Arquitetura, Gutemberg Weingartner, mas ele disse que estava em reunião e só poderia conversar outro dia. Também procuramos professores do curso de Arquitetura. Um deles respondeu, mas afirmou que por ordem superiores não poderia comentar o assunto.

A pró-reitora Ana Rita destaca que a UFMS está trabalhando para aumentar o atendimento psicológico disponível para os estudantes. "Os alunos nos procuram, muito se queixam, apresentam alguns quadros depressivos e de ansiedade. a demanda é maior que o serviço que temos de psicologia. Estamos estruturando, buscando apoio", explica. "É importante destacar que não vamos resolver problema, a gente está enfrentando o problema! Quando o estudante entra na universidade, suas preocupações mudam, começam a enfrentar a vida adulta, começam a se preocupar com futuro, profissão", pontua Ana Rita.

Ela diz que a UFMS tem uma pedagoga responsável por trabalhar na organização do conteúdo pedagógico. Sobre as reclamações de demandas "impossíveis" passadas pelos professores, a pró-reitora aponta que o conteúdo programático é aprovado por Lei Federal, mas não confirma se a UFMS acompanha de perto a atuação dos professores. "Os cursos tem certa liberdade para construir as grades curriculares e organizar as disciplinas. A Pró-Reitoria de Graduação é que discute esse projeto pedagógico com os coordenadores e colegiados de curso", afirma.

Em nota, a UFMS diz que notificou e convocou, na manhã de ontem, "a Coordenação do Curso de Arquitetura e Urbanismo e a direção da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia (FAENG) para identificar os problemas apontados e tratá-los da maneira mais responsável possível em respeito aos estudantes e docentes, estruturando um plano de ação em três esferas: acadêmica, assistência estudantil e gestão de pessoas".

"Estamos nos aproximando bastante dos alunos, fizemos várias reuniões. O que chega aqui, nós tentamos resolver", finaliza Ana Rita.

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