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CRUEL MUNDO DAS DROGAS

Droga tirou Julian de casa e só o devolveu morto, 20 anos depois

No adeus ao homem perdido para a dependência, mãe fala do amor ao filho, seja como ele for

17 Jul 2019 - 15h32Por Campo Grande News

O fim da vida foi como morador de rua, morto eletrocutado. Mas Julian Estácio de Souza, de 33 anos, tinha casa e três filhos. As drogas, desde os 13 anos, trouxeram as prisões, as internações, mudaram tudo e só devolveram o corpo em um caixão. A dor é enorme e Marinez Estácio Teixeira, diz que, mesmo antes da identificação do corpo, já sabia que o filho estava morto.

“Ele morou comigo até o falecimento do meu segundo marido, que ele chamava de pai. Aos 13 anos ele foi morar com o pai dele. A mãe sente e sabe de tudo, logo em seguida eu já vi que tinha algo de errado, ele já não queria frequentar minha casa. Ele entrou no mundo das drogas cheirando cola”, conta a mãe.

Marinez se culpa por não ter conseguido vencer as drogas. (Foto: Paulo Francis)Marinez se culpa por não ter conseguido vencer as drogas. (Foto: Paulo Francis)

O pai de Julian, o mecânico Valdecir Nunes, conta que o acidente de trabalho trouxe a família de volta a Campo Grande. Por ironia, o mesmo tipo de acidente que matou o filho. “Eu morava no andar de cima da loja e sofri uma descarga elétrica que me jogou e eu atravessei o telhado. Eu fiquei em coma cinco dias, porque tive uma ruptura craniana interna. Assim que sai do coma e eu me recuperei, nós voltamos para Campo Grande. Julian era um bebê ainda”, relembra.

Valdecir não via o filho havia três meses e na manhã de ontem cortava um pão, quando recebeu a ligação de Marinez. 

“Esse vício maldito levou meu filho. Eu não o via há meses a última vez encontrei ele no trevo do Imbirussu. Ainda perguntei o que ele estava fazendo, o aconselhei a largar o vício, mas não adiantou. A informação que eu tinha era que ele estava frequentando uma clínica. Hoje de manhã eu nem consegui tomar o café. Fui uma noite estranha também, eu não consegui dormir. Minha filha caçula chegou a sonhar com morte. Eu sempre falo para os jovens que droga não leva a nada, só leva a vida das pessoas mesmo”, garante.

O pai de Julian, o mecânico Valdecir Nunes conta que não via o filho há três meses. (Foto: Paulo Francis)O pai de Julian, o mecânico Valdecir Nunes conta que não via o filho há três meses. (Foto: Paulo Francis)

Destruída pela perda e se culpando por não ter conseguido tirar o filho da dependência, Marinez questiona até o fato de muitos pais rejeitarem os filhos gays e, em meio a dor, fortalece outros pais que enfrentam o mesmo problema com as drogas.

Julian abandonou os filhos e a esposa e as tentativas de resgate envolviam toda a família. Os irmãos sempre o encontravam nos semáforos e num ponto frequentado por usuários de droga próximo à UPA do Universitário.

A gente não conseguiu vencer as drogas, conta o irmão Júlio Aparecido Estácio Teixeira.(Foto: Paulo Francis)"A gente não conseguiu vencer as drogas”, conta o irmão Júlio Aparecido Estácio Teixeira.(Foto: Paulo Francis)

“Um dia, fui à Santa Casa reconhecer e cheguei a passar três vezes na frente do quarto, porque ele estava irreconhecível. Já cheguei a tirar ele de um telhado depois de um tiro no joelho. Eu sempre pedia para ele tomar cuidado, mas eu não esperava que a droga fosse fazer isso com ele. Ele não tinha maldade, o que levou ele foi a droga. Infelizmente, a gente não conseguiu vencer as drogas”, conta o irmão Júlio Aparecido Estácio Teixeira.

Marinez conta que o filho passou o último mês internado, mas a abstinência da droga o fez fugir novamente. “Há oito dias ele veio me ver e parece que foi uma despedida. Ele disse que me amava e foi embora. Antes dele sair ele me disse que voltaria para a clínica e eu acreditei. Eu vi meu filho indo com um casaco azul, meia e chinelo. Eu ainda disse para ele enfiar as meias no bolso do casaco, mas ele disse que não precisava", conta.

Julian no ano de 2018. (Foto: Arquivo Pessoal)Julian no ano de 2018. (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo ela, ele estava dormindo nas ruas há 15 dias e a reportagem da morte de um desconhecido na manhã terça-feira foi só uma confirmação da despedida.

Julian deixou os pais, três filhos e cinco irmãos. O velório ocorre na casa da mãe, no Bairro Los Angeles.

 

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