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"Segurança era bem fraca", diz acusado de vazar Enem

25 Ago 2010 - 08h40Por Agência Brasil
Onze meses após o vazamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que causou o cancelamento da prova às vésperas da realização, prejudicou cerca de quatro milhões de inscritos e tumultuou todo o calendário de vestibulares do final de 2009 e início de 2010, um dos cinco acusados de participar do crime concedeu uma entrevista exclusiva ao G1.

Marcelo Sena Freitas, hoje com 21 anos, é um dos acusados de retirar uma cópia da prova do Enem de dentro da gráfica Plural, na Grande São Paulo, em setembro de 2009. O jovem contou que a segurança no local era fraca. “A segurança era bem fraca. Em relação a tudo. Entrava e saía. Ninguém revistava. Nada.” Segundo Freitas, havia seguranças, "mas não revistavam as pessoas. Nada. A única segurança que tinha mesmo eram as câmeras".

Freitas, que só aceitou ser entrevistado na presença do advogado, Marco Aurélio Toscano da Silva, e pediu para não ser fotografado, se declara inocente das acusações, apesar de admitir que saiu da gráfica com uma prova.

Para começar a trabalhar, no início de setembro de 2009, duas semanas antes do furto, Freitas disse que passou por uma entrevista rápida em um dia e começou no outro. Recebia R$ 60 por dia de trabalho. Sua função era separar provas pelas cidades e colocar o material em caixas.

Freitas trabalhava para o consórcio Connasel, formado pelas empresas Consultec, Funrio e Instituto Cetro, que foi contratado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) para imprimir, distribuir e aplicar o Enem.

Em seu site, a gráfica Plural afirmou em nota divulgada em 11 de agosto que cabia ao consórcio Connasel a segurança da impressão das provas. Disse ainda que os acusados do vazamento eram contratados da empresa Cetro. O G1 não conseguiu contato com representantes da Cetro e da Plural na tarde desta terça-feira (24).

O Enem foi cancelado na madrugada do dia 1º de outubro de 2009 pelo Ministério da Educação, após a divulgação de que a prova havia sido furtada de uma gráfica em São Paulo e oferecida a uma repórter do jornal "O Estado de S. Paulo." O exame seria aplicado nos dias 3 e 4 de outubro.

O caso do vazamento voltou à tona na última semana, após a primeira audiência na Justiça Federal Criminal, na quarta-feira (18), que julga os cinco réus acusados de violação de sigilo funcional e corrupção passiva. A próxima audiência está prevista para ocorrer em 2 de setembro.

"Não foi ideia minha"
O rapaz, que hoje trabalha como vendedor, contou sua versão do caso. “Não foi ideia minha. Tava trabalhando e a gente sempre deixava as coisas como se fosse em um estoque. Deixei a minha blusa lá e voltei a trabalhar, quando voltei lá, para levar a minha blusa até o carro, não tinha mais por que deixar lá, a prova estava no meio da minha blusa e não tinha mais o que eu fazer. Eu levei ela. Ele pegou lá fora (Felipe Pradella) e eu não vi mais a prova”, disse.

Questionado se não pensou em devolver a prova, Freitas afirmou que teve medo de ser acusado de furto por outros funcionários. “Se eu tentasse devolver, fazer qualquer coisa, mostrando que eu estava com a prova fora dos pacotes, na hora ia acontecer alguma coisa em relação à minha pessoa lá dentro. Na hora iam falar que furtei. A única coisa que eu quis fazer foi tirar ela de perto de mim, porque foi a melhor coisa que me veio na cabeça.”

A volta para casa ocorreu como normalmente acontecia após as doze horas de trabalho, das oito da noite às oito da manhã. Freitas pegou carona com um amigo, que levava também Filipe Ribeiro Barbosa, que também é acusado de retirar uma prova da gráfica, outro rapaz e Felipe Pradella. Todos eram vizinhos em Osasco.

“O Felipe Pradella, o dono do carro não conhecia, conheceu na hora, tudo. Viu que ele conhecia a gente, que era uma pessoa legal, que mostrou ser no momento, e acabou oferecendo a carona”, disse Freitas.

Apesar de dizer que não sabia quais eram as intenções de Pradella, Freitas disse que sabia que outra prova tinha sido retirada da gráfica no dia anterior ao dia em que saiu com a prova. O rapaz preferiu não citar qualquer outro nome, além do de Pradella. O acusado pela retirada da outra prova é o amigo dele, Filipe Ribeiro Barbosa, com quem mantém contato até hoje.

Naquela noite, Freitas disse que não pensou no que poderia acontecer após a retirada da prova da gráfica. Dias depois, um amigo veio pegá-lo em casa com o jornal que trazia reportagem sobre a tentativa de venda da prova.

"Fiquei sabendo por um amigo meu, que me ligou de manhã cedo, foi até a minha casa. Falou para eu entrar no carro. Eu tava de pijama ainda, na rua. Falei não vou entrar. Ele falou "é sério". Entrei. Ele jogou o jornal. Vi a foto do Felipe Pradella. Aí, fomos até a casa do outro amigo que também estava trabalhando, mostramos a foto para ele também. Aí, a gente começou a ficar na cabeça que ia acontecer alguma coisa, que iam vir atrás da gente, porque com certeza ele ia colocar o nosso nome. Ele ia querer ferrar as pessoas", afirmou Freitas.

O jovem afirmou que não conhece os outros dois acusados no caso, Gregory Camillo Oliveira Craid, acusado de tentar vender a prova junto com Pradella, e Luciano Rodrigues, acusado de intermediar o contato com o jornal.

Procurada, a advogada de Felipe Pradella, Claudete Pinheiro da Silva, afirmou que prefere manter sigilo sobre o caso. O mesmo ocorre com o advogado de Craid, Ralfi Rafael da Silva. O advogado de Luciano Rodrigues não foi encontrado pela reportagem. O defensor público da União, Guilherme Andrade, que defende Filipe Ribeiro Barbosa, não respondeu o e-mail do G1 nesta terça-feira. Na última semana, Andrade disse por e-mail que preferia não se manifestar sobre a tese da defesa.

Caso sejam condenados, os acusados podem pegar pena de dois a seis anos de prisão por violação de sigilo funcional e de dois a doze anos de prisão por corrupção passiva. As datas previstas para as próximas audiências do caso são 2, 22 e 23 de setembro.

Enem 2010
Neste ano, o Enem está marcado para ocorrer em 6 e 7 de novembro. Na quinta-feira (19), a Justiça Federal concedeu liminar que permite à gráfica Plural, vencedora do pregão para imprimir provas deste ano, a continuar na licitação do Inep. O instituto afirmou que a licitação seguiria o seu curso, com a avaliação in loco do quesito segurança. Um total de 4,6 milhões de estudantes fizeram inscrição no Enem neste ano.

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