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23 de Agosto de 2004 13h29

Rede paulista de genoma desvenda outra praga agrícola

Pesquisadores brasileiros completaram o seqüenciamento genético de mais uma importante praga agrícola mundial. A bactéria atacada dessa vez foi a Leifsonia xyli, responsável pela principal doença da cultura de cana-de-açúcar: o raquitismo.

Com as informações genéticas em mãos, os pesquisadores esperam encontrar pistas para combater a infecção, que faz com que a planta perca até 50% de sua biomassa.

Quarta bactéria

O trabalho envolveu mais de 40 pesquisadores em 20 laboratórios da Agronomical and Environmental Genomes (AEG), uma das várias redes paulistas de genômica que nasceram do projeto de seqüenciamento da Xylella fastidiosa, quatro anos atrás.

Desde então, essa é a quarta bactéria agrícola seqüenciada dentro do programa Genoma da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), depois de uma segunda espécie de Xylella e duas de Xanthomonas - pragas de videiras e citros.

Canaviais

Outro projeto já concluído é o do genoma da cana, que, junto com o da Leifsonia, abre uma série de perspectivas para o controle da doença. O raquitismo ocorre no mundo todo e causa prejuízos anuais de US$ 36 milhões na Flórida (EUA) e US$ 11 milhões na Austrália. No Brasil, maior produtor mundial, a perda pode chegar a R$ 500 por hectare.

"Como temos uma área plantada com variedades suscetíveis de 100 mil hectares, podemos chegar a uma perda de R$ 50 milhões", calcula o pesquisador Luis Eduardo Aranha Camargo, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo. As plantas doentes, diz ele, perdem em média 27% do peso.

Transmissão pelo facão

A Leifsonia vive dentro do xilema - vaso que leva água e sais minerais da raiz até as folhas - e a transmissão no campo ocorre pela lâmina do facão, quando é usado para cortar uma planta infectada e outras sadias. Como um bisturi com sangue infectado numa sala de cirurgia.

O genoma da Leifsonia, segundo os cientistas, possui 2,5 milhões de bases nitrogenadas - as famosas letras A, T, C e G -, entre as quais foram identificados 2.351 genes. A meta agora é estudar a parte funcional desse genoma - ou seja, como ele controla as funções biológicas da bactéria.

Hormônio

Os cientistas suspeitam que a Leifsonia produz um hormônio vegetal, chamado ácido abscíssico, que atrasa o crescimento e, aparentemente, interfere na expressão dos genes de resistência da planta. "Poderíamos pensar em uma estratégia para inibir a produção desse hormônio, ou criar uma cana que seja insensível a ele", diz Camargo.

O projeto foi iniciado há três anos e custou US$ 700 mil, financiados pela Fapesp e pela Coopersucar (US$ 50 mil). O trabalho é destaque de capa na edição deste mês da revista Molecular Plant Microbe Interactions, da Sociedade Americana de Fitopatologia. A primeira autora é Cláudia Monteiro-Vitorello, também da Esalq.

 

Estadão

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