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Polícia Federal prende 44 de seus integrantes

16 Out 2004 - 10h21
Nos últimos vinte meses, a Polícia Federal (PF) prendeu 44 de seus integrantes, acusados de corrupção. Eram agentes graduados e delegados que, escudados por um distintivo e um uniforme, facilitavam o contrabando de armas nas fronteiras, lideravam esquemas de roubo e receptação de carros, atuavam em quadrilhas especializadas na adulteração de combustível e locupletavam-se no tráfico de drogas. Seis presos já foram demitidos e outros 38 estão suspensos, aguardando o término dos processos internos de expulsão. Caso eles se confirmem, a PF terá feito o maior expurgo de sua história.

O processo de autodepuração por que passa a corporação é fruto de duas mudanças que tiveram início no anos 90 e começam a se consolidar agora: a primeira, de metodologia; a segunda, de valores. Ao negar o corporativismo e mirar suas próprias fileiras, a Polícia Federal deixa clara a opção por expor suas feridas, para purgá-las em seguida, em vez de escondê-las até que se transformem em um câncer incurável. Se esse saneamento é bom para a instituição, é melhor ainda para o país.

A prática comprova que todo esquema de corrupção necessita da cumplicidade de um agente público para subsistir. Das 23 últimas grandes operações executadas, catorze resultaram na prisão de servidores públicos – incluindo, além de policiais federais, rodoviários e civis. Ao atacar esse flanco, ainda que isso signifique cortar a própria carne, a PF ajuda a combater um dos principais pilares da corrupção. O sucesso da prática não traz apenas ganhos morais: produz benefícios concretos para o Brasil, que seriam ainda maiores se outras instituições também empreendessem um processo de autolimpeza.

Tome-se o caso de Hong Kong. Em 1970, a ex-colônia inglesa tinha renda per capita de 970 dólares e era um exemplo clássico de ineficiência e corrupção – fruto, principalmente, da relação promíscua entre as suas polícias e os apostadores de jogo ilegal.

O governo tomou duas atitudes para reverter a situação: legalizou o jogo e promoveu uma varredura nos quadros policiais, que incluiu uma caça aos corruptos e a implantação de intensivos programas de treinamento e reciclagem. Hoje, o território chinês é considerado um dos lugares mais seguros do planeta, ocupa o 14º lugar no ranking da Transparência Internacional que lista os 133 países que melhor combatem a corrupção e sua renda per capita é de 25.430 dólares. "Hong Kong só virou um próspero Tigre Asiático porque conseguiu livrar-se dos níveis indecentes de corrupção", afirma Daniel Kaufmann, economista, diretor do setor do Banco Mundial de estudos sobre corrupção. Nova York viveu experiência parecida.

A reforma da sua polícia – que, além da substituição de policiais, incluiu até o redesenho dos uniformes, tamanho era o desgaste da instituição entre a população – acabou por reduzir à metade os índices de criminalidade na cidade nas últimas duas décadas. Kaufmann diz qual foi o resultado imediato: "O dinheiro que evaporava com o crime passou a ser investido no desenvolvimento".

 
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