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30 de Agosto de 2004 07h39

Maratonista brasileiro sai de Atenas como herói

O Brasil apresentou ao mundo seu mais novo herói, na noite deste domingo, num cenário histórico. Vanderlei Cordeiro de Lima chegou ao fantástico estádio Panathinaiko, ou Kallimarmaro - o do "melhor mármore” -, como verdadeiro guerreiro, que enfrentou um duro inimigo para sair como vencedor. Mesmo tendo sido atacado por um torcedor, terminou o trajeto de Marathon a Atenas na terceira colocação e conquistou o bronze. Com sabor de ouro. Foi recepcionado pelo público e pela imprensa internacional como campeão, deixando em segundo plano o ganhador da maratona, o italiano Stefano Baldini.

Mais do que a medalha, seu gesto digno de não jogar a toalha depois de levar golpe baixo encantou o planeta. A mídia desviou a atenção para o brasileiro, ofuscando a repercussão da final do vôlei masculino, do handebol e da cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos.

O atleta, de 35 anos, liderava a prova de honra do atletismo, de 42,195 quilômetros, com 25 segundos de vantagem sobre o segundo colocado, Baldini. Faltavam pouco mais de 6 quilômetros para o fim, quando um espectador, utilizando roupa tipicamente irlandesa, na calçada, assistindo à competição, invadiu a pista, pulou sobre o brasileiro, agarrou-o e o atirou no meio do povo.

O rapaz, depois identificado como Cornelius Horan, um ex-padre irlandês que já havia causado problemas em outros eventos - chegou a entrar na pista durante o GP da Inglaterra de Fórmula 1 em 2003 -, foi detido pela polícia. Vanderlei, no entanto, perdeu pelo menos 10 segundos no incidente e, pouco mais tarde, acabou ultrapassado por Baldini e pelo norte-americano Mebrathom Keflezighi, que ficou com a prata.

"Não esperava, não tive reação para me defender, porque estava concentrado na prova", contou o paranaense de Estrela d´Oeste, satisfeitíssimo com o bronze. "Aquilo me atrapalhou bastante, porque eu parei e perdi o ritmo, o final seria diferente", prosseguiu, em concorrida entrevista coletiva. "Mas não sei se venceria."

O episódio, seguramente, valorizou ainda mais o brasileiro do que um eventual primeiro lugar. As imagens ficarão marcadas para a eternidade como uma das mais impressionantes de todos os tempos em olimpíadas. "Acho que mostrei garra, determinação, como o soldado grego", afirmou Vanderlei.

A referência ao soldado grego remonta a 490 a.C. Na época, o soldado Pheidippedes correu de Marathon a Atenas (como os maratonistas deste domingo) para divulgar o triunfo dos atenienses sobre os persas na Batalha de Marathon.

A braveza e o "espírito olímpico", como definiu o próprio paranense, lhe renderão justa homenagem. O Comitê Olímpico Internacional (COI) vai premiá-lo com a medalha Pierre de Coubertin, dada a apenas um esportista até agora. "Em reconhecimento à excepcional demonstração de fair play e de espírito olímpico durante a maratona, Vanderlei Lima será presenteado pelo COI com a medalha Pierre de Coubertin", informou comunicado distribuído à imprensa.

O brasileiro recebeu o bronze, durante a cerimônia de encerramento dos Jogos, no estádio Olímpico, das mãos de Jacques Rogge, presidente do COI, que lhe pediu desculpas em nome do irlandês. "Ele me deu os parabéns, pediu desculpas, mas não entendi muito bem o que disse", contou Vanderlei.

O caso põe uma mancha na Olimpíada de Atenas, impecável até a entrada Cornelius Horan na pista. Os seguranças trabalharam pesado para manter a paz em meio a 100 mil pessoas presentes no percurso da maratona, mas pecaram por um segundo. "Não culpo a segurança, os policiais também não previam isso e poderia ter ocorrido em qualquer outro lugar", declarou o atleta brasileiro.

Vanderlei terminou o trajeto em 2h12m11, 1m16 atrás do vencedor. Embora tivesse sido bastante prejudicado pelo irlandês, dificilmente levaria o ouro. Baldini voou nos últimos quilômetros e já vinha diminuindo bastante a diferença em relação ao brasileiro. A decepção foi o queniano Paul Tergat, favorito ao ouro - ficou apenas em 10º lugar.

Vanderlei não chegou a Atenas como candidato ao pódio, mas garantiu que apostava em grande resultado. O paranaense tem no currículo títulos como os da Maratona de Tóquio, em 1996, de Reims, em 94, e ouro no Pan de Winnipeg (99) e no de São Domingos (2003). Nada comparado ao feito deste domingo.

 

 

Agência Estado

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