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Leia a crônica “O MUNDO QUE NÃO ACABA NUNCA”, por Gilberto Mendes

10 Ago 2010 - 12h02Por Gilberto Mendes

O MUNDO QUE NÃO ACABA NUNCA

 

 

A primeira vez que vi o mar foi uma emoção arrebatadora.

 

 

Cheguei à frente dele e o fiquei olhando, os olhos se esticando, se esticando, e o fim não chegava nunca, o mar engolia o horizonte se engalfinhava com ele, misturava-se a ele, um tornando-se o outro, o outro tornando-se o um.

 

 

Não me fiz de rogado, tirei a camiseta e joguei-a na areia branca, fiquei somente de sunga e corri para as águas que me convidavam para um abraço. Tornei-me criança novamente... Pulava e gritava, cantava loas para a maravilha de estar ali, de sentir a brisa marinha no rosto, a água salgada tocando todo o meu corpo, os pés pisando a areia, o som do mar – que coisa fantástica é o som do mar, as ondas quebrando nas rochas, a maré vindo beijar delicadamente a orla, o sol que se doava generosamente para todos, me senti mais perto de Deus e de todas as coisas, através do mar, do mar...

 

 

Sai purificado daí algum tempo e procurei a camiseta que havia atirado na praia e, descobri, que a maré havia levado-a para os confins do oceano. Não fiquei triste, pensei comigo que era um preço razoavelmente barato para pagar pela felicidade que havia recebido gratuitamente.

 

 

 

Olhei para o mar, onde ele beija o horizonte e, em pensamento, numa conversa intima com ele, como se fossemos dois velhos amigos, agradeci por tudo e por todos. Fui-me embora, de sunga mesmo, a casa em que estava era perto e os amigos já me aguardavam para o almoço.

 

 

Cheguei ao meu quarto e vi sobre a cama, a minha camiseta que havia deixado na praia. Perguntei para alguém que passava se ele sabia como ela havia chegado até ali e, este alguém me disse que um amigo meu havia trazido para mim...

 

 

Sai do quarto e fui para fora, para a rua, de onde podia ver o mar, para agradecer novamente. Olhei para ele fixamente, e com o coração despejei a minha gratidão num sussurro que como uma vaga levada pelo vento alcançou o mar e beijou-o em sua face.

 

 

No mar, uma gigantesca onda se formou e veio se quebrar na orla, tocando com seus lábios prateados e sorridentes a praia branca...

 

 

 

... O mar respondia e me convidava para cirandar em suas águas...

 

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