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4 de Junho de 2010 11h17

Leia a crônica “Meu Pequeno Jardim”, por Gilberto Mendes

Gilberto Mendes

MEU PEQUENO JARDIM

 

 

... e meu jardim resumiu-se ao pinheiro e uma roseira. O pinheiro, por sua própria espécie rude, sempre mostrou-se forte e independente, um ente com vontade própria e ânsia de liberdade. “Dê-me água!” pedia, “... e o resto é tudo comigo!” Arrogante meu pinheiro, mas assim sempre o foi, ele seguiu sempre solitário, satisfeito, arrotando sua independência.

 

 

A roseira, ao contrário, sempre foi frágil. A ela dediquei alguns cuidados e sempre se mostrou satisfeita com eles. Olhava-a com carinho, acariciava suas folhas, cheirava sorrindo suas flores, podava-lhe os talos e as pontas secas, limpava sempre seu espaço, irrigava-a, dedicava a ela fartos pedaços de mim, ainda que, a bem da verdade, meu conhecimento de jardinagem não consiga encher uma xícara.

 

 

Num dia qualquer, a roseira apareceu mal, doente, debilitada, vários galhos estéreis, secos. Ofereci alguns cuidados esmerados e emergenciais, todos aqueles que acreditei mais honestos, não houve jeito, tão rápido quanto foi o adoecer foi seu morrer. Meu pequeno jardim sofria uma perda irreparável, perdia-se a poesia, a beleza, a suavidade, a sensibilidade; ao lado, o pinheiro, imponente, ar mais arrogante impossível, testemunhava minha dor com olhos de “Eu sou um sobrevivente”, mostrando sua insensibilidade doentia por meio de um egoísmo aleijado.

 

 

Tive de me acostumar a não ver mais as belas rosas vermelhas, tive de me adaptar ao deserto que ficou no pequeno espaço quadrado de terra onde ela morou em vida e na minha retina todas as manhãs ao acordar e ir até a janela.

 

 

Um dia, vi que no lugar da roseira nascera um pé de mamão, como a semente fora parar ali é um desses mistérios da natureza. Ele apareceu pequenino e cresceu rápido. O pinheiro não gostou, no meu pequeno jardim ele sempre fora o forte, o Golias, o gigante, não via com bons olhos a invasão desse intruso que vinha para lhe arrancar o protagonismo solitário de seu monólogo em meu jardim.

 

 

Fiquei contente com isso.

 

 

Sempre vi o pinheiro com pouca gentileza, nunca gostei de sua soberba, empáfia e jactância. Desconfiei até que, de alguma forma, o infeliz fora responsável pela morte da minha meiga roseira. Nunca lhe atirei isso na cara, pois nunca tivera provas, e o deixei ficar... ainda que fosse um sentimento bizarro, nutria algo pelo arrogante pinheiro.

 

 

O pé de mamão cresceu e deu belos frutos e um dia, à mesa, quando partia uma de suas frutas para mim e as crianças, perguntei-lhes:

 

 

- Meninos, e a roseira?

 

 

Eles, com as boquinhas coloridas do alaranjado doce mamão responderam-me uníssono:

 

 

- Que roseira, pai?

 

 

E, cravaram seus dentinhos de leite na tenra carne do mamão, desinteressados. Olhei para o generoso pedaço de fruta em minha mão, mordi-o com euforia e sai para o quintal cuspindo as sementes.

 

 

- ... é mesmo, que roseira? Pensei olhando o mamoeiro altivo.

 

 

Meu coração lacrimejou, nessa hora, saudoso da roseira; meu estômago comemorou em júbilo, o mamoeiro. A vida continuava no meu pequeno jardim, diferente, mas continuava...

 

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