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Leia a crônica “De Volta”, por Ronaldo Duran

5 Jan 2009 - 11h40Por Ronaldo Duran

DE VOLTA

 

 

*Ronaldo Duran

 


À mesa, uma ceia esplendida brilhava. Pernil, frango, arroz com uvas passas. Havia pratos outros, verdadeiras iguarias. Bebida farta. Nada para incentivar o alcoolismo, apenas com a intenção de regar a animação. Muitos risos. Uns contavam vantagens, outros lamentavam a má sorte. Crianças corriam, gritavam, choravam cá e lá. Algazarra. Adolescentes que apostavam quantos copos fariam a tia Tal chorar ou o tio Tal ficar vermelho e começar a brigar com o mundo? A atitude ridícula, mas fazia parte da ceia de natal. Ano houve sem baixaria. Não teve graça.
  
Uma família brasileira. Quem a visse se animaria. Porém, se fosse um introspectivo, casmurro, solitário fechado provável a abominasse. O espectador, alojado no pequeno canto da sala de estar, é desses que conspira contra a alegria espontânea dentro do paraíso. Queria coisa diferente. Invejava colegas da empresa que puderam ir para Orlando, USA, ou Paris, ou para Búzios. Lugar badalado. Com gente fina e elegante. Circular em Nova Iorque , com neve caindo, tipo no filme Um Homem De Família, mas sem família, claro. Queria estar sozinho, com a namorada. Mas a namorada deixar a família na noite de natal? Impossível. Tudo bem. Iria sozinho se ela não quisesse acompanhar. Numa primeira classe para qualquer canto facilmente encontraria qualquer uma companhia à altura.

 

        
“Eh, menino, se achega para cá”, a avó lhe pede para largar o isolamento. Gostava da avó. Hoje, contudo, a estupidez incorporada na alma, restou apenas dizer um desaforo e servir-se de caipirinha. Tinha se enchido de cerveja e vinho, dando inveja ao estômago de um avestruz.

 

  
Uma da manhã. A Missa do Galo ainda passava na TV e após mandar para dentro o delicioso champanha, ele resolveu dar uma volta no quarteirão. Tirou o carro da garagem. Circularia na cidade que o viu crescer e da qual só se afastou quando do tempo da faculdade. Se houve o acidente de carro, não é só para dizer que bebida e volante não combinam.

 

  
O acidente nada teve de cinematográfico. Contudo fora violento. O rapaz socorrido pelo resgate foi levado ao hospital. Corria risco de morte? Não. As costelas quebradas, o nariz a refazer-se por intervenção cirúrgica lhe tomaria semanas no hospital e tantas horas fora em fisioterapia.

 

  
Ainda que estivesse ébrio antes do impacto, pôde perceber o carro girar, o freio que se recusava obedecer e a frase involuntária me ferrei. Antes de bater na lateral do ônibus e ir chocar-se num poste, pediu “Deus, ajuda”. Passado o susto e sabendo-se vivo, cederia em poucos instantes a satisfação de estar existindo diante da frase tinha que acontecer comigo, que azar.

 

    
Noite do dia trinta e um. Olhava pela janela do hospital. Lá fora, os fogos se anunciando. Podia adivinhar a roupa branca, a gritaria dentro de casa, a TV exibindo um programa musical qualquer, o vinho, a cerva educadamente gelada, o tira-gosto. Animação. Desde pirralho, adorava a noite do dia 31 de dezembro. Mesmo na fase mais brava de sua vida, a animação vinha regada a vinho Sangue de Boi, rabanada e papo gostoso com a galera na rua, mas vinha. Agora, ganhando bem mais que os colegas de adolescência e bem-sucedido na profissão... Estava entrevado num leito hospitalar.

 

   
Que alegria teve quando a avó e a mãe entraram lá pela meia noite no quarto do hospital. Além do sorriso, elas traziam rabanada, castanha e muito afeto. Afeto que muitos dariam tudo para ter nesse momento, mas que não valorizaram quando tiveram a chance. “Ano que vem eu me remendo. Vou dar valor por estar de volta à vida. Juro”, disse para si. Tomara que não seja mera promessa de ano novo.

 

      
*Escritor, autor do romance Ando de Ônibus, Logo Existo! Livraria www.corifeu.com.br

 

 

 

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