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Leia a crônica “Das Rosas às Couves ...”, por Gilberto Mendes

21 Jun 2010 - 18h10Por Gilberto Mendes

DAS ROSAS ÀS COUVES...

 

 

Tudo nela me estimulava a atenção e admiração.

 

Era daquelas mulheres que foi cozida no sofrimento da vida, moldada pela coragem, empurrada sempre pela obstinada idéia de seguir em frente e ser feliz no jeito e na forma que se pudesse sê-lo.

 

E, quantas vezes, não ficamos os dois sentados na grande varanda de sua grande casa, naquelas cadeiras de fio, olhando a tarde preguiçosa caindo lentamente, ela fazendo seu crochê, seus óculos sobre o pequeno nariz, os pezinhos balançando na cadeira sem tocar o chão, era pequenina a grande senhora. Seus cabelos grisalhos davam-lhe uma altivez que junto com sua dignidade a faziam enorme diante de mim e de todos que a conheciam, eu sempre a olhei com uma admiração que nunca coube dentro de mim e o sobejo deste orgulho despejava nas muitas palavras que professaram meu carinho por ela. Ficávamos ali, falando da vida e de suas vastas considerações, ela a mestra, eu o pupilo, aprendendo com sua sabedoria forjada na quente fornalha da Universidade da vida.

 

Para ela, todas as coisas sempre foram muito simples.

 

Ela tinha uma solução para tudo, porque tudo seguia suas regras estabelecidas nesta filosofia de viver com simplicidade e parcimônia, equilíbrio talvez fosse a palavra chave – não soube disso na hora, aprendi depois, quando o tempo também me ensinou algumas coisinhas.

 

Outras vezes, acordava ouvindo o ruído da vassoura contra as calçadas, com os sons que vinham da cozinha, o cheiro do café que ascendia pela casa, ela sempre se movimentando, sempre lépida, sempre fazendo alguma coisa, ela tinha um prazer insaciável pela vida.

 

Na frente da casa, no bairro nobre da cidade, ela cultivava um jardim.

 

Não era nada muito majestoso, mas tinha lá suas roseiras e outras flores. Todos os dias ela regava ao amanhecer do dia, assoviando uma velha canção popular portuguesa, certamente, seus pensamentos a levando de volta à terra natal.

 

Um dia, sem qualquer explicação, testemunhei o jardim completamente destruído e, no seu lugar, diversos canteiros. Perguntei-lhe por que havia feito aquilo, já que as roseiras estavam tão belas. Ela me olhou por cima dos óculos, e disse do jeito que sempre falou, algo ríspido, com a sabedoria que lhe era peculiar: “ Não se come rosas, se come?” Tive de responder que “por certo que não” e ela atestou: “Pois então, Adeus às rosas, bem vindas as couves...”

 

No dia em que soube de sua morte, vários anos depois deste episódio, lembrei deste caso em especial porque ele demonstrava a força e a sabedoria dessa mulher tão extraordinária, tão forte, tão singular e que tirava a sua força e energia da simplicidade com que via as coisas ao seu redor.

 

Eu aprendi muito com ela naquele dia, quando ela substituiu as rosas pelas couves, ela me mostrou que devemos estar atentos para saber o que é realmente importante na vida e, sem cerimônias, arrancar o que é imprestável e pôr em seu lugar o indispensável, não importa o quando isso doa na gente, as dores de hoje serão os sorrisos de amanhã. No breve tempo que lá vivi, ela tornou-se um pedaço forte de mim, moldando parcela significativa de meu caráter e maneira como enxergo a vida. Eu a vi e a vejo como uma segunda mãe e, todos os dias, lembro-me dela com carinho e admiração. E, lá no céu, em sua morada, no seu jardim bem cuidado, em algum dos cantos, deve ter lá o seu canteirinho de couves... E, ao lado, uma linda roseira, ainda que aqui e ali (quando em vida) ela tenha mutilado sua sensibilidade com praticidade, ela sempre esteve lá, dentro do seu coração enorme e belo.

 

 

 

Visitem o blog do autor: www.nelmezzodelcammim.blogspot.com

 

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