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Jornal Hoje denuncia venda de dados da Receita, Detran e outros

24 Abr 2007 - 15h04
O Jornal Hoje da Rede Globo acompanhou durante um mês a venda ilegal de CDs com informações sigilosas dos cidadãos brasileiros. Dados da Receita Federal, de clientes de bancos, de motoristas cadastrados no DETRAN e a relação dos assinantes de empresas telefônicas. Tudo é negociado nas ruas do centro de São Paulo, à luz do dia, a poucos metros de uma delegacia de polícia. Quatro pessoas foram presas.
 
Em sete quarteirões no centro de São Paulo, mais de 500 lojas e um batalhão de ambulantes. A Santa Efigênia concentra tudo o que existe no mercado brasileiro de produtos eletroeletrônicos e de informática. Inclusive o que é ilegal. Com uma câmera oculta, acompanhamos durante um mês a ação dos vendedores de CDS piratas pelas ruas da região.

Lá um o homem conhecido por Célio oferece um programa de informática sob medida para ladrões. "Tem um CD de hacker, aquele que as ‘quadrilha’ usa para roubar dinheiro, para os cara descobrir senha."
 
Mas o forte desse comércio ilegal é a venda de informações que deveriam ser sigilosas. São cadastros de bancos, empresas e órgãos públicos com nome, endereço, telefone e o número dos documentos de milhões de pessoas e empresas.
A negociação é rápida e objetiva.
JH: De empresas você tem?
Célio: Tem empresas, só São Paulo.
JH: Empresa?
Célio:Tem mil... Um milhão e 300 empresas.
JH: Esse de empresa sai quanto?
Célio:Tá bom cem reais? Depois se você quiser a gente tem o da receita também.
JH: Qual da receita?
Célio:Da Receita Federal. Quem declara Imposto de Renda, mas Brasil.
JH: E esse da receita mesmo quanto dá pra mim?
Célio:Dá pra fechar cem paus para você também.
O mesmo preço da lista de assinantes de uma companhia de telefone fixo. Quando o interessado aparece, o vendedor pega o CD escondido debaixo numa sacola. “É Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Endereço, CPF, RG, telefone e nome.” E ele mesmo lembra. “Isso aí você tá ligado que dá cana, né?”
 
Apesar do alerta do vendedor ninguém parece preocupado com isso. A venda de dados sigilosos é crime previsto no código penal e pode dar até quatro anos de cadeia. Mas o comércio ilegal na região da Santa Efigênia é feito ao ar livre, a poucos metros da delegacia.
 
Outro vendedor, Aristeu, explica como faz para se livrar do policiamento.
Aristeu: Eu não boto placa mais não. Fico encostado na parede e o bolso cheio, com o bolso cheio. Aí eu venho pegar o CD, uma lista telefônica, uma receita.
JH: É aqui do lado né?
Aristeu: É do lado. Eu vou andar com elas dá um flagrante. Não é que dá cadeia, você vai lá você paga um pauzinho aí e vem embora.
JH: Quanto eles cobram na delegacia?
Aristeu: Vamos supor, o cara te pega aí, vai te levando. Tem cem conto aqui, vai tomar um café aí, o cara te libera.

Ele nos oferece um CD do DETRAN, com informações dos veículos e dos donos. “Cara quente, um cara que traz isso aí do DETRAN. É cara que trabalha lá dentro.” E nos leva até a casa dele para pegar o CD com informações de um grande banco e da Receita. Satisfeito com as negociações, Aristeu se despede e avisa. “Quando você precisar um CD assim difícil aí, pode falar que eu consigo.”
 
Todos os CDS que nós compramos foram encaminhados ao Ministério Público e ao setor de inteligência da Polícia Civil. De acordo com a investigação, as informações que constam nos CDS vendidos na Santa Efigênia são verdadeiras.
 
Com autorização judicial, os telefones de suspeitos foram grampeados. Em um dos trechos da gravação um rapaz pede para Célio a relação dos CDs ilegais.
Rapaz: Pode ser um catálogo seu, fica mais fácil de eu comprar.
Célio: Eu te mando, eu te mando gravado num CD. Pode ser?
Rapaz: Isso. Me manda gravado num CD. Beleza. Todo seu catálogo. Aí, eu escolho aquilo que eu quero e fica mais fácil de pedir.
Nesta terça-feira a polícia tirou copias de notas de R$ 50 e foi à Santa Efigênia para comprar os cadastros sigilosos. O primeiro a ser preso foi um menor que havia buscado o CD ilegal. Em seguida, foram presos Célio e Aristeu, que aparecem na reportagem. Eles são acusados de comandar este tipo de crime. Um outro homem também foi levado para a delegacia. No local, vários CDS ilegais foram apreendidos. “De posse de informações como essa a venda de informações para amigos, para inimigos. Existe a extorção criada em cima disso. As investigações irão continuar para verificar quem é que está fornecendo essas informações”, disse o delegado Luiz Antonio Pinheiro.
 
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que todas as denúncias de corrupção envolvendo policiais civis e militares são encaminhadas para as corregedorias das polícias para serem investigadas. E que até o momento não existe nenhum policial sendo investigado sobre o recebimento de propina para a liberação de criminosos que comercializam bancos de dados pessoais.
 
 
 
Jornal Hoje

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