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Brasil

Hepatite C mata quatro vezes mais do que o HIV

26 Nov 2004 - 09h02

A Hepatite C é uma doença silenciosa: raramente apresenta sintomas e pode destruir o fígado lentamente. Em 80% dos casos a infecção torna-se crônica e atualmente está matando quatro vezes mais do que a AIDS. É muito freqüente pessoas de nível sócio-econômico e intelectual falecerem por causa da Hepatite C sem que a sociedade venha a saber”, afirma o Dr. Roberto Focaccia, Coordenador do Grupo de Hepatites e do Curso de Pós Graduação do Hospital Emílio Ribas.

Este é um dos temas do 2º Congresso de Infectologia do Cone Sul, que será realizado entre os dias 02 e 04 de dezembro, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo.

O grande problema da Hepatite C é que as pessoas não sabem que são portadoras do vírus. E pior, a comunidade desconhece a gravidade da doença. Pesquisa realizada pelo Emílio Ribas mostra que 76% dos habitantes da cidade de São Paulo não sabem o que é e como se dá o contágio das Hepatites. “Este é o reflexo da falta de um programa educacional comunitário específico para o problema. As ONG´s têm realizado este trabalho, mas ainda é pouco frente à dimensão do problema”, comenta o Dr. Focaccia.

Ainda, de acordo com o médico, o governo não pode fazer uma triagem de toda a população, como seria desejável, porque não há verbas e estruturas para tratar 4 a 5 milhões de pessoas infectadas no Brasil. Somente os medicamentos para o combate do vírus respondem por cerca de R$ 2 mil ao mês – com um tempo de terapêutica de seis meses a um ano, dependendo do tipo de vírus infectante.

A forma de contágio da Hepatite C é, principalmente, pelo contato com sangue contaminado. Além do usuário de drogas ilícitas injetáveis, todo material cortante e perfurante de uso coletivo constitui um risco potencial. “A gilete não descartável do barbeiro e o cortador de cutícula da manicure não devidamente esterilizado são grandes transmissores da infecção. A falta de cuidados de biossegurança em consultórios dentários populares, entre outros procedimentos a que a população se submete, responde por metade dos casos de contágio. A questão é cultural e pede um amplo plano de redução de danos por parte dos gestores de saúde”, diz o Dr. Focaccia.

Um dado curioso é que o vírus da Hepatite permanece vivo na tinta utilizada pelos tatuadores. Assim, de nada adianta o material descartável ou esterilizado, pois o perigo está na tinta. Outra questão envolve as drogas inalatórias. A mucosa nasal é o ambiente mais propício para a absorção de vírus. E os usuários de cocaína, crack, entre outros, apresentam suas mucosas muito irritadas e sujeitas a secreções e feridas contendo vírus, os quais podem transmitir a infecção no momento do uso coletivo de “tubinhos” para a inalação das drogas.

Há dois medicamentos disponíveis no mercado para o tratamento da doença: interferon comum ou peguilado administrado em associação com a ribavirina. A adesão completa ao tratamento é de mais de 95% dos pacientes tratados, graças ao programa de Pólo de Aplicação Assistida instituído pela Secretaria Estadual da Saúde. “São centros de referência onde os pacientes recebem os medicamentos toda semana sob a supervisão e controles das equipes médicas”, confirma o Dr. Focaccia. Ele lembra que havia um “mercado negro” de venda de medicamentos. Muitos conseguiam o remédio e vendiam. Além do mais, complementa ele, não existia a garantia de que o paciente estivesse auto-administrando a medicação de forma adequada. Nem mesmo se os medicamentos estavam sendo conservados às temperaturas adequadas em geladeiras.

Quando as Hepatites se manifestam clinicamente, surge numa primeira fase sintomas inespecíficos de cansaço, intolerância a alimentos gordurosos, febres, dores no lado direito do abdômen, náuseas, entre outros. A seguir surge a icterícia, fezes esbranquiçadas e urina escura. A Hepatite C, entretanto, raramente apresenta essa fase clínica aguda, passando desapercebida a infecção. E 20% vão sofrer lenta evolução para cirrose, ou insuficiência hepática, e em 1 a 4 % desenvolverá câncer de fígado.

Aids e Hepatite

Segundo o Dr. Focaccia, cerca de 50 a 60% dos soropositivos tem Hepatite C (especialmente os usuários de drogas ilícitas ou portadores de doenças que necessitem de transfusão de sangue ou derivados) e, destes, 80% terão o fígado destruído. Em apenas três anos a doença evolui para uma cirrose, insuficiência hepática ou câncer de fígado.

Quando detectada precocemente, a Hepatite C causada pelo tipo viral 2 ou 3, pode alcançar a cura clínica em até 80% dos casos em portadores de HIV, e até 50% quando o tipo viral é o 1. No entanto, com a doença em estágio avançado, os resultados são muito ruins. No caso da co-infecção de Hepatites crônicas (B ou C) com o HIV, os anti-retrovirais podem agravar a doença. “As lesões no fígado, provocadas pela Hepatite, decorrem da resposta imunológica do paciente, e provavelmente a recuperação parcial do sistema imunológico devido à medicação anti-retroviral aumenta o risco de lesões hepáticas devido à presença da infecção pelo vírus da Hepatite C (e/ou B)”, comenta o Dr. Focaccia. (Com informações da H10 Comunicação)

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