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Filho de Renan comprou rádio após doação do pai

23 Ago 2007 - 10h00

O dinheiro usado por Renan Calheiros Filho -conhecido como Renanzinho- para se tornar sócio majoritário do Sistema Costa Dourada de Radiodifusão e montar a Correio Gráfica é do seu pai, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), de acordo com documentos aos quais a Folha teve acesso.

Ou seja, o presidente do Senado financiou os dois negócios da família. Informada do fato, a assessoria do senador não se manifestou até a conclusão desta edição.

Do ponto de vista fiscal, aparentemente a transação é lícita. Mas auditores ouvidos pela Folha entendem que a operação tem indícios de ter sido montada para ocultar a origem dos recursos empregados. A suspeita é investigada pelo Conselho de Ética e pela Corregedoria do Senado. A declaração de Imposto de Renda de Renanzinho é o primeiro documento oficial a ligar o senador Rena Calheiros diretamente à compra de uma rádio.

Desde o começo do mês que o senador é bombardeado com denúncias de ter usado laranjas na compra de empresas de comunicação em Alagoas. O usineiro João Lyra afirma que Renan entrou numa sociedade com ele no grupo O Jornal, mas pondo a empresa no nome de seu assessor parlamentar Carlos Santa Ritta.

Posteriormente, segundo Lyra, o grupo foi dividido entre ele e o senador. O usineiro diz ter ficado com o jornal e Renan, com as rádios do grupo. Na cisão, de acordo com documentos entregues por Lyra ao corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP), Santa Ritta transferiu sua participação na empresa para Renan Calheiros Filho.

Segundo o usineiro, Renan Calheiros também é o verdadeiro dono da Costa Dourada Radiodifusão. Em sua defesa, o senador nunca mencionou o fato de ter bancado a participação de seu filho na negociação do sistema de rádio.

Em 2005, Renanzinho comprou 40% do Sistema Costa Dourada, por R$ 40 mil, e entrou com 16% da Correio Gráfica (equivalente a R$ 150 mil), montada com capital de R$ 900 mil. Naquele ano, o senador doou R$ 140 mil ao filho. Renan informou no Imposto de Renda a doação ao filho. Renanzinho declarou o recebimento da doação, mas não mencionou a origem do dinheiro.

No caso da gráfica, Renanzinho desembolsou R$ 75 mil em 2005 e se comprometeu a integralizar mais R$ 75 mil no ano seguinte. Em 2006, seu pai lhe doou os R$ 75 mil. Não fosse o dinheiro do pai, Renanzinho não teria condições financeiras de entrar nas sociedades.

Em 2005, Renanzinho teve renda líquida de R$ 55,4 mil, como prefeito da cidade de Murici (AL). Comprou uma camionete de luxo pagando R$ 45,28 mil, além de assumir prestações por vencer. Terminou o ano com bens no valor de R$ 235,28 mil (R$ 150 mil da gráfica, R$ 40 mil da rádio, mais o automóvel) e uma dívida de R$ 82,268 mil, sendo R$ 75 mil do capital a integralizar da rádio e um "buraco" no cheque especial de R$ 7.268,40.

Sem a doação do pai, Renanzinho teria empatado 81,7% de sua renda líquida inteira com o carro, sobrando R$ 10 mil para custear todas as suas demais despesas no ano. Um ano antes, em 2004, Renanzinho havia declarado como seu único bem um automóvel Golf 2001. Até 2004, o Senador só havia declarado doação a seus filhos para custeio de estudos

Fazendas

Além de Santa Ritta, o usineiro João Lyra acusou Ildefonso Tito Uchôa, primo de Renan, de também ter atuado como laranja do presidente do Senado nas rádios. Uchôa é sócio com Renanzinho tanto na gráfica quanto na rádio Costa Dourada. Conforme a Folha publicou há duas semanas, dois ex-proprietários de terras de Alagoas apontaram Uchôa como espécie de testa-de-ferro de Renan Calheiros na transação de fazendas em Alagoas.

Renan declarou ter comprado de Uchôa, em 2004, a Fazenda Alagoas por R$ 400 mil. Mas Uchôa não informou ao fisco nem a posse nem a venda da fazenda naquele ano, o que reforça as suspeitas de que a propriedade na verdade pertence a Renan Calheiros. Benedito Vieira da Silva, disse à Folha que havia vendido a fazenda para Uchôa em 1998 por R$ 600 mil.

A reportagem deixou recado na casa de Uchôa, mas ele não ligou de volta.

Folha de S.Paulo

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