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13 de Março de 2007 09h49

Desnutrição mata mais uma criança indígena em Dourados

A Funasa (Fundação Nacional de Saúde) registrou mais uma morte de criança indígena por desnutrição na Reserva Indígena de Dourados. No atestado de óbito que está no IML (Instituto Médico Legal) consta que a causa foi desidratação e diarréia infecciosa.

Segundo o coordenador do distrito sanitário, pediatra Zelik Trajber, o menino de um ano e dois meses morreu ontem depois que a mãe o retirou do Hospital da Missão sem licença médica. Ele vinha recebendo tratamento contra desnutrição moderada, ficou desidratado e só foi encaminhada ao hospital pela família quando o quadro já era bastante grave.

Zelik disse que a criança esteve internada durante quatro dias e, antes de recebe alta, a mãe do menino de um ano e dois meses levou o filho para a casa de outra pessoa. Eles não foram encontrados e só avisaram a Funasa na segunda-feira, quando o menino já estava morto.

O médico diz que a criança é vítima de uma família desajustada por conta do alto consumo de bebidas alcoólicas, um dos problemas sociais mais graves e que vem contribuindo para detonar a saúde dos indígenas com idades abaixo de dois anos.

Balanço

Desde 2005, 47 crianças kaiwás morreram de desnutrição e, neste ano, já houve seis registros de mortes. O último caso de morte por desnutrição ocorreu no dia 25 de fevereiro na Aldeia Bororó, na Reserva Indígena de Dourados, onde o bebê indígena Cleison Benites Lopes, de apenas 10 meses de idade, morreu vítima de desnutrição grave, conforme atestado de óbito assinado pelo médico Raul Grigoleti.

Relatório da Funasa aponta desnutrição como causa da morte de seis crianças indígenas guaranis e kaiwás com até dois anos de idade em Mato Grosso do Sul entre janeiro e fevereiro deste ano. Em todo o ano de 2006, a desnutrição apareceu entre as causas da morte de 14 crianças guaranis e kaiwás de até quatro anos, enquanto em 2005 foram 27 casos.

O relatório diz que, neste ano, a Funasa atendia às crianças, mas não conseguiu salvá-las devido a desajustes na família indígena. Em dois casos, a desnutrição aparece como única causa da morte; em quatro óbitos, está associada a doenças. No total, 22 crianças indígenas morreram em janeiro e fevereiro em Mato Grosso do Sul, sendo 20 das etnias guarani e kaiwá.

Além das seis mortes relacionadas à desnutrição, outras 16 crianças indígenas foram mortas por pneumonia, gastroenterite, insuficiência cardíaca, prematuridade e até agressão física. Em 2007, houve três mortes relacionadas à desnutrição em Dourados.

Alerta

No domingo passado, o cacique guarani Carlos Antônio Duarte, conhecido como Piririta, alertou que a falta de espaço para plantar e a redução no número de cestas básicas na reserva indígena de Dourados tende a piorar a situação. "Se com a ajuda das cestas, as mães já vinham encontrando dificuldades para levar alimento a mesa durante o mês inteiro, imagina agora sem ela. Muitas crianças, que apresentam sinais de desnutrição, estão sujeitas a morrer de fome", disse.

O indígena acredita ainda no aumento no número de suicídios, pois muitos jovens, que perderam os pais em situações de violência, ou fome, acabam tirando a própria vida. "O jovem ainda menor, tem os irmãos menores para cuidar, dar o que comer. Sem idade para arrumar emprego, e percebendo o desespero da situação, acaba cometendo o suicídio. Outra questão está voltada a falta de espaço. Não existe território suficiente para que as famílias plantem os alimentos para o consumo. Além disso, não há maquinários, para auxiliar os trabalhos", disse.

O cacique disse que as autoridades públicas deveriam resolver o impasse o mais rápido possível e não atribuir ao índio o problema da desnutrição. "Algumas autoridades da Funasa dizem que o índio não põe comida dentro de casa por que troca as cestas por bebidas alcoólicas. Concordo que existem lá uma meia dúzia que fazem isso, mas a maioria recebe as cestas com honestidade e com a finalidade única de se alimentar. Por causa da irresponsabilidade de alguns, a maioria dos índios está pagando. O certo é tirar as cestas daqueles que não dão valor, para isso, as assistentes sociais, e agentes da Funai deveriam fazer um trabalho mais intensificado na reserva", acrescenta.

 

 

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