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AGÊNCIA BONITO THIAGO
Brasil

Contabilidade da máfia registra propina a 84 DPs

16 Jun 2007 - 07h45
O advogado Jamil Chokr tinha um mapa da propina paga à polícia em São Paulo. Oitenta e quatro dos 93 distritos policiais das oito delegacias seccionais da cidade recebiam de R$ 40 a R$ 4.400 por semana. Para cada bairro, o advogado anotava em tabelas a quantidade de máquinas de caça-níqueis em operação e, com base nesse número, calculava quanto devia arrecadar como propina para entregar à polícia. Essa é a linha da investigação aberta pela Corregedoria da Polícia Civil e pelo Ministério Público Estadual sobre o escândalo. Isso porque as tabelas montadas por Chokr e apreendidas na apuração seguem o padrão das anotações feitas pelo advogado em envelopes com R$ 27 mil achados em seu carro após um acidente, no dia 25.
Cada envelope tinha anotado, como destinatário, um número ordinal para designar o DP, como 16º (Vila Mariana) e 31º (Vila Carrão). Dentro, havia um cálculo. O total de caça-níqueis era multiplicado por 40. O resultado dessa conta era igual ao valor em dinheiro do envelope. Apenas nove distritos da cidade não constam dos envelopes e das tabelas como beneficiários da propina. E dois deles - 36º DP (Paraíso) e 70º DP (Sapopemba) - eram destinatários dos envelopes com dinheiro, mas não há valores nas tabelas.
O mapa da propina mostra que a delegacia que mais deveria receber propina é justamente a de uma região conhecida por concentrar um grande número de pontos de jogo do bicho e caça-níqueis: o 7º DP, na Lapa, área dominada pelo bicheiro Ivo Noal. A delegacia lidera o ranking encontrado com Chokr. Suspeita-se que recebesse R$ 4,4 mil toda sexta-feira.
Na zona norte, onde a atividade dos caça-níqueis já provocou uma guerra, com a morte do bicheiro Francisco Plumari Junior, o Chico da Ronda, em 2003, o advogado anotou valores de R$ 3,9 mil para o 39º DP (Vila Gustavo). Essa delegacia ocupa o segundo lugar entre as que mais receberiam propina - em outra lista, porém, ela aparece como destino de R$ 3,6 mil. O terceiro lugar está com o 1º DP, da Sé. Ali a jogatina repassaria R$ 3,7 mil à polícia.
Todas as tabelas foram apreendidas com Chokr depois que o advogado bateu seu Vectra blindado na Marginal do Tietê, ao tentar fugir de um assaltante. Ele acabara de deixar a empresa Reel Token, que trabalha com caça-níqueis, quando um homem tentou roubá-lo. Chokr nega as acusações e diz que os R$ 27 mil achados em 31 envelopes eram dinheiro de honorários. Interrogado ontem pela corregedoria, o contador da Reel Token, cujo nome não foi divulgado, confirmou a versão de Chokr.
Além da Reel Token, outras 40 empresas trabalhariam com caça-níqueis em São Paulo. Ao todo, a polícia estima que havia em abril 300 mil caça-níqueis no Estado. Dessa forma, a arrecadação poderia chegar a R$ 300 milhões por mês.
ENTENDA O CASO
25/5 - No carro do advogado de donos de caça-níqueis Jamil Chokr, PMs encontram envelopes com dinheiro e números de distritos policiais de São Paulo. Chokr fugia de um assalto em seu Vectra blindado. A Corregedoria da Polícia Civil abre investigação
28/5 - Os números nos envelopes coincidem com os de distritos policiais da capital. A corregedoria ouve um PM que atendeu a ocorrência. Delegados da elite da Polícia Civil se apressam a divulgar a versão, falsa, de que o PM confessou ter fraudado a lista com a numeração dos DPs e as anotações nos 31 envelopes com dinheiro
29/5 - Versão falsa sobre fraude na lista faz as cúpulas das Polícias Civil e Militar trocarem acusações
1/6 - Um dia depois de ser citado numa relação de supostos beneficiados com propina para não agir contra pessoas ligadas a jogos de azar, o Departamento de Polícia Judiciária (Decap) faz operação em que apreende 2.204 máquinas caça-níqueis e fecha sete bingos em São Paulo
4/6 - Corregedoria da Polícia Civil pede quebra de sigilo telefônico de pelo menos 25 investigadores que chefiam equipes em DPs
13/06 - Grampos da Polícia Federal confirmam que Chokr subornava DPs da capital. Dono de uma empresa de caça-níqueis, o empresário Raimondo Romano, flagrado na Operação Xeque-Mate, diz em telefonema que terá de achar “desculpa plausível” para a lista encontrada com advogado.
14/06 - Anotações mostram que Chokr arrecadou só em abril R$ 205 mil com donos de caça-níqueis. Na contabilidade do advogado, parte do dinheiro aparece destinado à Polícia Federal em São Paulo, ao Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) e ao Decap.

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