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CANTINA BAH
Brasil

BB perde espaço no mercado e avalia fusão com a Caixa

4 Jun 2007 - 14h30
Por trás dos lucros recordes divulgados com alarde pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal, há uma realidade que o governo teima em manter distante da opinião pública: essas instituições estão tendo seus espaços engolidos pelos bancos privados. E não é preciso ser nenhum especialista em finanças para fazer tal constatação. Enquanto os ativos administrados pelo BB e pela Caixa cresceram 57% e 70%, respectivamente, entre dezembro de 2002 e março de 2007, os recursos de posse do Bradesco e do Itaú expandiram-se 137% e 139%. O resultado: a Caixa caiu da segunda para a quarta posição no ranking dos maiores bancos do país e a liderança absoluta que o BB ostentou com tranqüilidade nos últimos anos está a um passo de ser tomada pelos dois bancos privados.

Quando consolidados os números, o encolhimento da participação do BB e da Caixa no mercado se torna mais evidente. Em 2002, último ano da era Fernando Henrique Cardoso, os dois bancos públicos respondiam por 32,40% dos ativos totais administrados pelas 50 maiores instituições financeiras do país. Em 2006, final do primeiro mandato do presidente Lula, essa parcela havia caído para 29,76%. E, pela projeção dos analistas, pode ter ficado próxima dos 28% no primeiro trimestre de 2007 — os números consolidados ainda não foram fechados pelo Banco Central. Entre 2002 e 2006, Bradesco e Itaú ampliaram a presença no mercado de 22,05% para 24,62%, podendo ter chegado aos 26% em março deste ano.

“Esses números não surpreendem. Banco do Brasil e Caixa estão pagando o preço de estarem amarrados à burocracia do governo e, sobretudo, por serem usados como moedas de troca em negociações políticas. O mesmo ocorre com a Petrobras e a Eletrobrás”, diz Demetrius Borel Lucindo, analista da Fator Corretora. Ele reconhece, contudo, que, depois de ter o seu nome envolvido em quase todos os escândalos do governo Lula — entre eles, o mensalão —, o BB passou por mudanças importantes e os resultados já começaram a aparecer. Nos três primeiros meses deste ano, os números do banco — lucro líquido de R$ 1,4 bilhão — foram melhores do que o previsto e mostraram uma instituição muito mais atenta ao avanço da concorrência.

O mercado chama ainda a atenção para o programa de aposentadoria proposto pelo BB, que pode atingir 12,5 mil funcionários. É um passo importante para adequar a instituição a um modelo mais enxuto já adotado pelos grandes bancos privados.

Fusão dos estatais
Dentro do BB e da Caixa, é visível o desconforto com a sova que as duas instituição têm tomado dos bancos privados. Mas tanto o vice-presidente de Finanças do BB, Aldo Luiz Mendes, quanto o vice-presidente de Controladoria da Caixa, João Dornelles, descartam que a baixa performance das instituições decorre de questões políticas. Para eles, o que realmente provocou o avanço do Bradesco e do Itaú foram as compras que fizeram no mercado nos últimos anos.

Somente o Bradesco — cujos executivos dão como certo que a instituição assumirá a liderança do mercado bancário brasileiro ainda neste ano — arrematou mais de 20 instituições de pequeno e médio portes. O Itaú deu o grande salto no ano passado, ao assumir o controle de todos os negócios do BankBoston no Brasil, no Uruguai e no Chile. “Nosso crescimento se dá apenas de forma orgânica, pelos nossos negócios”, diz Mendes. “E temos sido muito eficientes, pois ampliamos nossa participação em crédito, o principal ativo dos bancos”, acrescenta Dornelles.

Ressalvas à parte, os dois executivos admitem que o futuro dos bancos públicos será um tema inevitável a ser tratado dentro do governo, sobretudo porque essas instituições são vistas como importantes instrumentos para forçar a queda dos juros aos consumidores e empresas. “Como controlador dos bancos, é natural que o governo busque alternativas para fortalecer as instituições”, afirma o vice-presidente do BB. Ele lembra que já é publica a possibilidade de a instituição assumir o controle acionário do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Mas há opções mais radicais.

No caso, por exemplo, de Bradesco ou Itaú comprar o Banco Real ABN Amro, o BB pode se fundir com a Caixa Econômica, como admite Antonio Francisco Lima Neto, presidente do Banco do Brasil. E ele tem razões para defender isso. Os ativos do Banco Real totalizavam, em março último, R$ 131, 3 bilhões. Se adquiridos pelo Bradesco, o banco da Cidade de Deus, em Osasco (SP), totalizaria ativos de R$ 413,2 bilhões ante os R$ 321,8 bilhões do BB. Se o Real for incorporado pelo Itaú, o banco das famílias Setúbal e Villela passaria a administrar R$ 389,1 bilhões — quase o dobro dos recursos de posse da Caixa (R$ 219 bilhões).

Para os analistas, independentemente de Bradesco ou Itaú assumir os negócios do Banco Real, a fusão do BB com a Caixa terá se ser considerada de qualquer forma pelo governo. “Mas é preciso ver se realmente os dois bancos públicos se complementam. À primeira vista, vejo complicações. São dois bancos de culturas completamente distintas”, afirma Alexandre Marques Filho, analista da Corretora Elite.

André Segadilha, analista do Banco Prosper, é da mesma opinião. “A Caixa sempre fez o papel de banco de fomento para as pessoas físicas, financiando, principalmente, a casa própria. Já o BB sempre atuou de forma mais parecida com os bancos privados, ainda que responsável por executar uma forte política de crédito para o setor agrícola”, frisa. “Não sei se essas estruturas combinam”, acrescenta.

Noivas cobiçadas
Em meio às discussões sobre a perda de espaço do BB e da Caixa Econômica Federal, os analistas concentram agora as atenções no que ocorrerá com o Banco Real. Seu controlador, o ABN Amro, com sede na Holanda, está sendo negociado com o inglês Barclays, que já admitiu abrir mão dos negócios no Brasil. O principal interessado é o Santander Banespa, que ganharia musculatura suficiente para desbancar a Caixa Econômica do quarto lugar da lista das maiores instituições — somaria ativos de R$ 242 bilhões.

Outra noiva cobiçada é o Unibanco, que caiu para a sétima posição do ranking. “Depois da venda do Real, certamente o mercado especulará sobre o futuro do Unibanco”, diz Eduardo Roche, analista do Banco Modal. Ele não vê, porém, prejuízos aos consumidores se, nos próximos dois anos, restarem quatro ou cinco grandes bancos no Brasil. “Eles travarão uma guerra pesada para manter a clientela. Isso exigirá serviços melhores, a preços mais acessíveis”, avalia.   ( Correio Braziliense )

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