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18 de Outubro de 2004 16h44

Analistas duvidam de tecnologia nuclear do Brasil

Especialistas na área nuclear disseram duvidar que a tecnologia brasileira, que causou polêmica internacional e levou a ONU a ordenar inspeções nas instalações do País, seja de ponta, como o governo brasileiro alega. Os analistas dizem que a ultracentrífuga de Resende (RJ), que deverá ser verificada parcialmente pelos inspetores, "deve ser melhor do que as piores" ou é apenas "uma máquina mais ou menos".

De acordo com o governo brasileiro, a ultracentrífuga teria a capacidade de enriquecer urânio (usado como combustível para usinas nucleares) com o menor desgaste possível, "já que não haveria atrito entre os metais". A máquina seria capaz de girar em uma velocidade tão alta que "flutuaria em um campo magnético".

"Todas as máquinas flutuam", comentou Henry Sokolski, que trabalhou no Pentágono como chefe da equipe de não-proliferação nuclear entre 1988 e 1993 e hoje é diretor-executivo do Centro de Educação para Políticas de Não-Proliferação, em Washington. "Os brasileiros dizem que ela é 30% mais eficiente e que é única. Mas ela não é, provavelmente, a mais eficiente ou a mais nova. Com certeza, ela deve ser melhor dos que as piores. Mas o quanto melhor, eu não sei."

Sokolski destaca que não viu a centrífuga de Resende, mas tem informações vindas de pessoas que a viram. "Muitos especialistas dizem que a centrífuga do Brasil é similar à chamada P2, que você encontra no Irã e no Paquistão."

Segredo industrial
O britânico Gary Dillon, ex-inspetor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e chefe da equipe que foi para o Iraque entre 1993 e 1999, diz que existem dois tipos de tecnologia: uma é lubrificada a óleo, raramente usada hoje em dia, e a outra, mais comum, é a eletromagnética, em que ocorre um contato direto limitado entre os metais. "Não é impossível que o Brasil tenha algo mais avançado. É possível que se tenha algo totalmente magnético com nenhum contato nas superfícies. Não estou sabendo que isso tenha sido feito. Fisicamente é possível, mas eu duvido."

O americano David Albright, ex-inspetor de armas nucleares da AIEA e presidente do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, em Washington, diz acreditar que existam tecnologias mais econômicas e rápidas do que a brasileira.

Para ele, a ultracentrífuga de Resende "é uma máquina mais ou menos". Mesmo assim, o especialista acredita que a informação sobre a ultracentrífuga deve ser guardada em sigilo. "As informações das centrífugas devem ser mantidas em segredo. O Paquistão roubou o design europeu nos anos 70. O Iraque estava roubando o design da Alemanha nos anos 80. O Irã fez a mesma coisa nos anos 80 e 90."

Mas nenhum analista falou sobre a possibilidade de que essa quebra de sigilo pudesse ocorrer com os inspetores da AIEA. "Isso não aconteceria com os inspetores da AIEA, mas há casos, como o notório doutor Khan (Abdul Qadeer Khan, cientista paquistanês), que roubou a tecnologia da Urenco (consórcio europeu) e a transferiu para o Paquistão. Eu acredito que os inspetores da agência estão em uma outra categoria e que as coisas estarão seguras com eles. Eles estão trabalhando em nome da ONU", disse Steve Kidd, diretor da Associação Nuclear Mundial, em Londres.

"Os inspetores fazem isso em várias partes do mundo e não transferem nenhuma informação. Nenhum país, inclusive o Brasil, deve, então, usar isso como desculpa para não cumprir suas obrigações com a AIEA", disse Matt Martin, analista da Conselho de Informação de Segurança Americano e Britânico, organização independente que analisa a política dos governos na área de defesa, em Londres.

Soberania
O impasse quanto ao segredo industrial brasileiro, na avaliação de Albright, acabou ganhando outra proporção. "Acho que o que aconteceu foi que se tornou uma questão nacional. Um ponto de orgulho para o governo brasileiro por causa da maneira como isso tudo se tornou público. Mas acho que, se o Brasil não acertar um acordo com a agência nuclear, isso irá causar um conflito."

Sokolski acha, no entanto, que a posição do governo brasileiro em não querer mostrar parte da ultracentrífuga de Resende não contraria apenas os Estados Unidos. "Isso, na verdade, é o Brasil contra o resto mundo. O eles estão fazendo e é surpreendente."

Embora ninguém questione os fins pacíficos do programa nuclear brasileiro, os planos do Brasil para o enriquecimento de urânio devem continuar sob observação da comunidade internacional até que se chegue a um acordo com a agência nuclear.

Os agentes da AIEA, que chegaram hoje ao Brasil, fazem uma inspeção em Resende na terça-feira. A AIEA não confirmou se essa será a última inspeção antes da autorização para o funcionamento da fábrica.

 

 

BBC Brasil

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